3. Fontes de Ruído Eletromagnético — Natural, Industrial e Artificial

Compatibilidade Eletromagnética

3. Fontes de Ruído Eletromagnético — Natural, Industrial e Artificial

Compatibilidade Eletromagnética — Apostila de Curso
Tópicos: Classificação de fontes · Ruído natural (atmosférico, cósmico, térmico) · Ruído industrial (chaveamento, arcos) · Telecomunicações · Dispositivos domésticos · CISPR e limites · Análises em Python

3.1 Antes de começar

Ao final, você deve classificar fontes por origem, espectro, repetitividade, modo e impedância, relacionando $dV/dt$ e $dI/dt$ aos caminhos de acoplamento. Diagnóstico: a frequência de chaveamento é necessariamente a maior frequência relevante para EMC? Evidência mínima: prever harmônicos a partir do tempo de subida e confrontar a previsão com uma FFT corretamente escalada.

3.2 Classificação das Fontes de Ruído Eletromagnético

A compatibilidade eletromagnética (EMC) exige que todo equipamento eletrônico opere em um ambiente eletromagnético sem sofrer degradação e sem emitir interferências além dos limites estabelecidos por normas. O primeiro passo para qualquer análise de EMC é identificar e classificar as fontes de ruído presentes no ambiente.

3.2.1 Fontes Naturais vs. Artificiais

Toda fonte de interferência eletromagnética (EMI) pertence a uma das duas categorias fundamentais:

Categoria Origem Exemplos
Natural Fenômenos da natureza Relâmpagos, radiação cósmica, ruído térmico, auroras
Artificial Equipamentos e sistemas fabricados Conversores DC-DC, transmissores, motores, computadores

3.2.2 Espectro de Interferências no Ambiente RF

O espectro eletromagnético de interferências varia enormemente em frequência, potência e temporalidade. A figura conceitual a seguir esquematiza as principais regiões:

Frequência (Hz)    Fonte Dominante
──────────────────────────────────────────────────────
   0 – 10 kHz      Ruído galáctico + descargas atmosféricas
  10 kHz – 1 MHz   Ruído atmosférico intenso + ruído industrial
   1 – 30 MHz      Transmissores AM + ruído industrial + atmosférico residual
  30 – 300 MHz      Transmissores FM/TV + ruído térmico dominante
 300 MHz – 3 GHz    Telecomunicações (celular, Wi-Fi) + chaveamento digital
   3 – 30 GHz       Enlaces de micro-ondas + radar + ruído atmosférico
  30 GHz – 300 GHz   Absorção atmosférica (H₂O, O₂) + ruído térmico

3.2.3 Classificação por Natureza Temporal

Além da origem, as fontes são classificadas pela natureza do sinal que geram.

Contínua vs. Impulsiva:

$$ \boxed{ \begin{array}{ll} \text{Contínua (CW):} & s(t) = A\cos(2\pi f_0 t + \phi) \\ \text{Impulsiva:} & s(t) = \sum_{k} A_k \cdot p(t - t_k) \end{array} } $$

onde $p(t)$ é um pulso com duração finita e $t_k$ são instantes de ocorrência estocásticos.

Narrowband vs. Broadband:

Uma fonte é narrowband quando sua energia está concentrada em uma banda estreita $\Delta f \ll f_c$:

$$ \boxed{S_{\text{narrow}}(f) \approx P_0 \cdot \delta(f - f_c) * W(f)} $$

com $W(f)$ uma janela de largura $\Delta f$ centrada em $f_c$. Fontes narrowband típicas: transmissores de rádio, osciladores.

Uma fonte é broadband quando sua densidade espectral de potência (PSD) se estende sobre uma faixa ampla:

$$ \boxed{S_{\text{broad}}(f) \propto f^{-\alpha}, \quad \alpha > 0} $$

Fontes broadband típicas: descargas elétricas, chaveamento de cargas indutivas, ruído térmico.

3.3 Fontes Naturais de Ruído

3.3.1 Ruído Atmosférico (Descargas Elétricas)

O ruído atmosférico é gerado por relâmpagos — descargas eletrostáticas entre nuvens e entre nuvens e o solo. Cada relâmpago gera um pulso de corrente com duração de alguns microssegundos e amplitude de dezenas a centenas de quilamperes.

O espectro médio do ruído atmosférico é modelado pela fórmula de Robinson (ITU-R P.372):

$$ \boxed{P_{\text{atmos}}(f) \propto \frac{1}{1 + \left(\dfrac{f}{f_c}\right)^2}} $$

com $f_c \approx 10\,\text{kHz}$. Acima desta frequência de corte, o ruído atmosférico decai com $6\,\text{dB}/\text{octave}$ (ou $20\,\text{dB}/\text{decada}$).

O índice de ruído atmosférico $N$ em decibéis acima de $kTB$ (onde $k$ é a constante de Boltzmann, $T = 290\,\text{K}$, e $B$ é a largura de banda) é dado pela ITU-R P.372:

$$ N(f, \lambda) = A + B \cdot e^{-C(f-1)} + D(\lambda) \cdot e^{-E(f-1)} $$

onde $f$ está em GHz, $\lambda$ é a latitude geográfica, e $A$–$E$ são parâmetros empíricos tabelados.

3.3.2 Ruído Cósmico

A radiação cósmica de fundo e a radiação sincrotrão do Sol e de fontes extragalácticas contribuem para o ruído recebido por antenas orientadas para o céu. Para frequências abaixo de $\approx 1\,\text{GHz}$, a temperatura de ruído do céu é bem aproximada por:

$$ \boxed{T_{\text{sky}}(f) \approx 25\,000 \left(\frac{f}{1\,\text{MHz}}\right)^{-2.55}\,\text{K}} $$

Esta lei de potência descreve a emissão sincrotrão de elétrons relativísticos nos campos magnéticos galácticos. A dependência $f^{-2.55}$ é característica de espectros sincrotrón com distribuição de energia de elétrons $N(E) \propto E^{-p}$, onde $p \approx 2.7$.

Para $f = 100\,\text{MHz}$:

$$ T_{\text{sky}}(100\,\text{MHz}) \approx 25\,000 \cdot (10^8)^{-2.55} = 25\,000 \cdot 10^{-20.4} \approx 0{,}063\,\text{K} $$

Para $f = 10\,\text{MHz}$:

$$ T_{\text{sky}}(10\,\text{MHz}) \approx 25\,000 \cdot (10^7)^{-2.55} \approx 25\,000 \cdot 10^{-17.85} \approx 1\,330\,\text{K} $$
$$ T_{\text{ant}} = \eta_{\text{ant}} T_{\text{sky}} + (1 - \eta_{\text{ant}}) T_{\text{ground}} $$

onde $\eta_{\text{ant}}$ é a eficiência de radiação e $T_{\text{ground}} \approx 290\,\text{K}$ é a temperatura física do solo. Para antenas com lóbulo principal baixo no horizonte, $T_{\text{ground}}$ domina.

3.3.3 Ruído Térmico de Johnson-Nyquist

Todo condutor em equilíbrio térmico gera uma tensão de ruído devido ao movimento térmico aleatório dos portadores de carga. Este é o ruído de Johnson-Nyquist, fundamental em toda análise de sensibilidade de receptores.

$$ \boxed{S_{V}(f) = 4\,k_B\,T\,R \quad [\text{V}^2/\text{Hz}]} $$

onde $k_B = 1{,}381 \times 10^{-23}\,\text{J/K}$ é a constante de Boltzmann.

Convenção: aqui $S_V(f)$ é unilateral ($f\ge0$) e $B$ é a largura de banda equivalente de ruído. Na convenção bilateral, cada lado possui $2k_BTR$. A aproximação branca clássica requer $hf\ll k_BT$; não se integra $4k_BTR$ até frequência infinita.

A tensão RMS medida em uma banda $B$ é:

$$ \boxed{V_n = \sqrt{4\,k_B\,T\,R\,B}} $$

Da mesma forma, a potência de ruído disponível (potência máxima transferível para uma carga casada) é:

$$ \boxed{P_n = k_B\,T\,B} $$

Em decibéis em relação a 1 watt ($\text{dBW}$):

$$ P_n\,[\text{dBW}] = 10\log_{10}(k_B T B) $$

Para $T = 290\,\text{K}$ e $B = 1\,\text{Hz}$:

$$ k_B T = (1{,}381 \times 10^{-23})(290) \approx 4{,}005 \times 10^{-21}\,\text{W} $$
$$ k_B T\,[\text{dBW/Hz}] = 10\log_{10}(4{,}005 \times 10^{-21}) \approx -204\,\text{dBW/Hz} $$

Em unidades de $\text{dBm/Hz}$ ($1\,\text{mW} = 10^{-3}\,\text{W}$):

$$ k_B T\,[\text{dBm/Hz}] = -204 + 30 = \boxed{-174\,\text{dBm/Hz}} $$

Este número — $-174\,\text{dBm/Hz}$ a $290\,\text{K}$ — é um dos mais importantes em telecomunicações.

$$ V_n = \sqrt{4 \cdot (1{,}381\times 10^{-23}) \cdot 300 \cdot 50 \cdot (10\times 10^6)} $$
$$ V_n = \sqrt{4 \cdot 1{,}381 \cdot 300 \cdot 50 \cdot 10^{-17}} = \sqrt{8{,}286 \times 10^{-13}} \approx 9{,}10 \times 10^{-7}\,\text{V} = 910\,\text{nV RMS} $$

3.3.4 Ruído de Fundo Cósmico (CMB)

O Fundo Cósmico de Micro-ondas (CMB — Cosmic Microwave Background) é a radiação eletromagnética remanescente do Big Bang, com espectro de corpo negro a $T_{\text{CMB}} \approx 2{,}725\,\text{K}$. Sua contribuição para o ruído de antena é significativa apenas em frequências acima de $\approx 5\,\text{GHz}$, onde o ruído cósmico sincrotrón já decaiu enormemente.

A densidade espectral de potência do CMB é dada pela lei de Planck:

$$ \boxed{B_{\nu}(T) = \frac{2h\nu^3}{c^2} \cdot \frac{1}{e^{h\nu/(k_B T)} - 1}} $$

No limite de baixas frequências ($h\nu \ll k_B T$), recupera-se a lei de Rayleigh-Jeans:

$$ B_{\nu}(T) \approx \frac{2\nu^2}{c^2} k_B T $$

3.3.5 Limite de Friis para Sensibilidade do Receptor

O piso de sensibilidade de um receptor é determinado pelo ruído referido à entrada e pelo critério de detecção. Não confunda a equação de transmissão de Friis (potência recebida em um enlace) com a fórmula de Friis para ruído (cascata de fatores de ruído); são resultados diferentes associados ao mesmo autor.

Equação de sensibilidade: a potência mínima detectável depende do ruído total referido à entrada e da SNR mínima exigida. Há duas formas equivalentes, desde que não sejam misturadas.

Se a fonte está na temperatura padrão $T_0=290\,\text{K}$ e o receptor tem fator de ruído $F$:

$$ \boxed{P_{\text{min}}=k_BT_0BF\,(SNR)_{\text{min}}} $$

Se a antena tem temperatura $T_{\text{ant}}$ e o receptor adiciona temperatura equivalente $T_e=(F-1)T_0$:

$$ \boxed{P_{\text{min}}=k_B(T_{\text{ant}}+T_e)B\,(SNR)_{\text{min}}} $$

onde $T_{\text{sys}}=T_{\text{ant}}+T_e$ (mais outras contribuições referidas ao mesmo plano). Portanto,

$$ \boxed{P_{\text{min}}=k_BT_{\text{sys}}B\,(SNR)_{\text{min}}}. $$

Nas expressões:

O fator de ruído é definido como:

$$ \boxed{F \equiv \frac{(SNR)_{\text{in}}}{(SNR)_{\text{out}}} \geq 1} $$

Em decibéis:

$$ F_{\text{dB}} = 10\log_{10} F $$

Para um amplificador com ganho $G$ e fator de ruído $F$, a temperatura de ruído equivalente é:

$$ \boxed{T_e = (F - 1) T_0} $$

onde $T_0 = 290\,\text{K}$ é a temperatura de referência.

Para estágios em cascata, a fórmula de Friis para fator de ruído é:

$$ \boxed{F_{\text{total}} = F_1 + \frac{F_2 - 1}{G_1} + \frac{F_3 - 1}{G_1 G_2} + \cdots} $$

Mais precisamente, o LNA deve aparecer cedo, depois das perdas passivas inevitáveis e da proteção necessária. Um filtro ou cabo antes dele adiciona sua perda ao orçamento e degrada a figura de ruído; “sempre o primeiro componente” não é uma regra física absoluta.

3.4 Fontes Industriais de Ruído — Chaveamento

3.4.1 Conversores DC-DC, Inversores e Drives de Motor

Fontes chaveadas são a fonte de ruído industrial mais ubíqua. Inversores, drives de motor, fontes chaveadas de alimentação e conversores DC-DC operam abrindo e fechando chaves eletrônicas (MOSFETs, IGBTs) a frequências de dezenas de kHz a dezenas de MHz.

O mecanismo fundamental de geração de ruído é o chaveamento: uma transição rápida entre dois estados gera harmônicos em larga faixa de frequência e correntes/transições de tensão elevadas.

3.4.2 Forma de Onda de Chaveamento e Harmônicos

Considere um conversor buck básico com onda quadrada de tensão. A tensão de saída é uma onda quadrada de amplitude $V_{dc}$ e período $T = 1/f_s$, com ciclo de serviço $D$:

$$ v(t) = \begin{cases} V_{dc}, & 0 \leq t < DT \\ 0, & DT \leq t < T \end{cases} $$

expandindo em série de Fourier:

$$ \boxed{v(t) = D V_{dc} + \sum_{n=1}^{\infty} \frac{2V_{dc}}{n\pi} \sin(n\pi D) \cos(n\omega_0 t)} $$

com $\omega_0 = 2\pi f_s$. Os harmônicos têm amplitudes:

$$ V_n = \frac{2V_{dc}}{n\pi} |\sin(n\pi D)| $$

Para onda quadrada simétrica ($D = 0{,}5$):

$$ \boxed{v(t) = \frac{V_{dc}}{2} + \sum_{k=0}^{\infty} \frac{4V_{dc}}{(2k+1)\pi} \sin((2k+1)\omega_0 t)} $$

Somente harmônicos ímpares. O $n$-ésimo harmônico decai com $1/n$ (ou $-20\,\text{dB}/\text{decada}$).

3.4.3 dV/dt e dI/dt como Mecanismos de Acoplamento

As transições rápidas de chaveamento geram altos valores de dV/dt e dI/dt, que são os mecanismos primários de acoplamento de EMI:

Acoplamento capacitivo (via dV/dt):

$$ \boxed{i_{\text{coupled}} = C_{\text{parasita}} \frac{dV}{dt}} $$

onde $C_{\text{parasita}}$ é a capacitância parasita entre a chave e o circuito sensível.

Acoplamento indutivo (via dI/dt):

$$ \boxed{v_{\text{coupled}} = M \frac{dI}{dt}} $$

onde $M$ é a indutância mútua parasita entre o laço de comutação e o circuito afetado.

$$ i_{\text{coupled}} = 10^{-12} \cdot \frac{400}{10 \times 10^{-9}} = 40\,\text{mA} $$

Esta corrente injetada em um circuito de medição de $1\,\text{k}\Omega$ gera $40\,\text{V}$ de interferência.

3.4.4 Frequência de Chaveamento e Espectro de EMI

O espectro de emissão de uma fonte chaveada possui três regiões distintas (modelagem de McCroskey):

  1. Região de harmônicos discretos ($f < 1/(2\pi\tau_r)$): harmônicos da frequência de chaveamento com decaimento $-20\,\text{dB}/\text{decada}$
  2. Região de transição ($f \approx 1/(2\pi\tau_r)$): pico de máxima emissão
  3. Região de decaimento rápido ($f > 1/(2\pi\tau_r)$): decaimento $-40\,\text{dB}/\text{decada}$

onde $\tau_r$ é o tempo de subida da chave.

A frequência de corte do espectro é:

$$ \boxed{f_{\text{max}} \approx \frac{0{,}35}{\tau_r}} $$

Reduzir $\tau_r$ aumenta a largura de banda das emissões (piora EMI), mas aumentar $\tau_r$ aumenta as perdas de chaveamento ($P_{\text{sw}} \propto \tau_r$). Este é um trade-off fundamental do projeto EMC.

3.4.5 Mitigação de Ruído de Chaveamento

As técnicas principais são:

  1. Snubbers (RC ou RCD) — reduzem dV/dt e dI/dt
  2. Filtros EMI (LC, π, T) — atenuam emissões conduzidas
  3. Blindagem — contêm emissões irradiadas
  4. Spread Spectrum Clocking — espalham energia harmônica
  5. Layout otimizado — minimizar laços de comutação e acoplamentos parasitas

3.5 Fontes Industriais — Arcos Elétricos e Solda

3.5.1 Ruído de Solda

Processos de solda (MIG, TIG, eletrodo revestido) geram ruído de banda larga através do arco elétrico — um plasma condutor com temperatura de $5\,000$ a $20\,000\,\text{K}$. O espectro do ruído de solda segue uma lei de potência:

$$ \boxed{S_{\text{weld}}(f) \propto f^{-\alpha}} $$

com $\alpha$ tipicamente entre $0{,}5$ e $2{,}0$, dependendo do tipo de solda e dos parâmetros de processo.

O arco de solda se comporta como um gerador de corrente aleatória com componentes em toda a faixa de RF. As emissões podem ser particularmente intensas entre $10\,\text{kHz}$ e $100\,\text{MHz}$.

$$ R_{\text{arc}}(t) = \frac{V_{\text{arc}}}{I_{\text{arc}}(t)} $$

com $V_{\text{arc}} \approx 20\text{--}50\,\text{V}$ e $I_{\text{arc}}$ com flutuações aleatórias de alta frequência.

3.5.2 Motores com Escovas

Motores DC com escovas de carbono geram EMI por faiscamento entre as escovas e o comutador. A cada comutação, há uma faísca transiente com espectro de banda larga:

$$ S_{\text{brush}}(f) \propto \frac{1}{f} \quad \text{(ruído tipo } 1/f \text{ adicional ao térmico)} $$

As faíscas são pulsos de duração $\tau \approx 1\text{--}10\,\text{ns}$, o que implica componentes espectrais até $f_{\text{max}} \approx 35\text{--}350\,\text{MHz}$.

3.5.3 Fornos a Arco

Fornos a arco (usados na siderurgia) são fontes de interferência de altíssima potência. Modelados como fontes de corrente impulsivas:

$$ \boxed{I_{\text{arc}}(t) = \sum_{k} I_k \cdot \exp\left(-\frac{(t - t_k)^2}{2\sigma^2}\right) \cos(2\pi f_c (t - t_k))} $$

onde $I_k$ é a amplitude do $k$-ésimo pulso, $\sigma$ controla a largura temporal e $f_c \approx 50\text{--}60\,\text{Hz}$ é a frequência da rede.

3.6 Telecomunicações e Transmissores

3.6.1 Transmissores de Rádio, TV e Celular

Transmissores de comunicação são fontes intencionais de ruído — eles emitem sinais, mas podem causar interferência não-intencional quando seus harmônicos, intermodulações ou emissões espúrias atingem frequências não autorizadas.

3.6.2 Potência Irradiada Efetiva (EIRP)

A potência irradiada efetiva é a potência aparente irradiada por um transmissor, incluindo o ganho da antena e as perdas do cabo:

$$ \boxed{EIRP = P_{\text{trans}} + G_{\text{ant}} - L_{\text{cable}}} $$

Todas as grandezas em $\text{dBW}$ (ou $\text{dBm}$). Em linear:

$$ EIRP_{\text{linear}} = P_{\text{trans}} \cdot G_{\text{ant}} \cdot L_{\text{cable}} $$

onde $P_{\text{trans}}$ é a potência do transmissor, $G_{\text{ant}}$ é o ganho da antena (linear, $>1$), e $L_{\text{cable}}$ é a perda do cabo (linear, $<1$).

$$ EIRP = 40 + 15 - 2 = 53\,\text{dBm} = 200\,\text{W} $$

3.6.3 Interferência Co-Canal, Adjacente e Intermodulação

Interferência co-canál: Dois transmissores na mesma frequência ocupando a mesma área de cobertura. Causa colisão direta.

Interferência adjacente: Transmissor em frequência vizinha invade o canal do receptor devido à seletividade finita do filtro do receptor.

Intermodulação: Quando dois ou mais sinais de frequências $f_1$ e $f_2$ passam por um componente não-linear (amplificador, conector oxidado, etc.), são geradas frequências de intermodulação:

$$ \boxed{f_{IM3} = 2f_1 - f_2 \quad \text{e} \quad f_{IM3}' = 2f_2 - f_1} $$

Estas são as intermodulações de terceira ordem, as mais problemáticas pois caem próximas aos sinais originais e são difíceis de filtrar.

O ponto de intercepção de terceira ordem (IP3) é um parâmetro de especificação:

$$ \boxed{P_{IM3} = 3P_{\text{in}} - 2IP3} $$

onde $P_{IM3}$ e $P_{\text{in}}$ estão em dBm e IP3 é em dBm. A interceptação ocorre quando $P_{IM3} = P_{\text{in}}$, logo:

$$ IP3 = \frac{3P_{\text{in}} - P_{IM3}}{2} $$

3.6.4 Interferência Co-Canal em Sistemas Celulares

A relação sinal-interferência (SIR) em uma célula com reutilização de frequência é:

$$ \boxed{SIR = \frac{P_r(d_0)}{P_r(d_i)} = \left(\frac{d_i}{d_0}\right)^{\gamma}} $$

onde $d_0$ é a distância do transmissor desejado, $d_i$ é a distância dos transmissores co-canais interferentes, e $\gamma$ é o expoente de propagação ($2\text{--}4$ típicos).

3.7 Dispositivos Domésticos e Pessoais

3.7.1 Wi-Fi, Bluetooth e Micro-ondas

Dispositivos domésticos modernos são fontes significativas de EMI:

Dispositivo Frequência Potência Típica Tipo de EMI
Wi-Fi (802.11ac/ax) 2,4 GHz / 5 GHz / 6 GHz 100 mW Narrowband (portadora)
Bluetooth 2,4 GHz 10 mW Narrowband (FHSS)
Forno micro-ondas 2,45 GHz 700–1200 W Broadband (faiscamento)
LED driver 50 Hz – MHz Varies Broadband (chaveamento)
Carro elétrico (carregador) 3–22 kW 3–22 kW Broadband (chaveamento)

3.7.2 Ruído Conduzido pela Rede Elétrica

Dispositivos com fontes chaveadas injetam ruído na rede elétrica, que se propaga para outros equipamentos conectados à mesma rede. O ruído conduzido de banda larga é particularmente problemático em instalações industriais com muitos drives de motor.

A densidade espectral de ruído conduzido de uma fonte chaveada é aproximadamente:

$$ \boxed{V_{\text{noise}}(f) \approx \frac{V_{\text{sw}}}{\pi f L_{\text{line}}} \quad \text{para } f \gg f_s} $$

onde $V_{\text{sw}}$ é a tensão de chaveamento, $f_s$ é a frequência de chaveamento e $L_{\text{line}}$ é a indutância do cabo de alimentação.

3.7.3 CISPR 32 / EN 55032 — Norma de Emissão

A norma CISPR 32 (substituindo CISPR 22 e CISPR 13) estabelece os limites de emissão para equipamentos de multimídia. Aborda:

Os limites são especificados em dBµV para emissões conduzidas e dBµV/m para irradiadas, com duas bandas de medida:

3.8 Exercícios Resolvidos em Python

3.8.1 Protocolo computacional

Objetivo: caracterizar ruído térmico, espectro de chaveamento, EIRP e intermodulação. Reprodutibilidade: declare RBW, janela, amostragem e convenção de PSD. Validação: confira $kTB$, Friis em unidades lineares, Parseval e inclinações harmônicas esperadas.

3.8.2 Cálculo de Ruído Térmico e SNR

PYTHON
import numpy as np

# Constantes fundamentais
k_B = 1.381e-23        # J/K - constante de Boltzmann
T0  = 290              # K - temperatura de referencia

def noise_power_bw(T, B):
    """Potencia de ruido termico em uma banda B (Hz)."""
    return k_B * T * B

def noise_power_dBm(T, B):
    """Potencia de ruido em dBm."""
    P_w = noise_power_bw(T, B)
    return 10 * np.log10(P_w / 1e-3)

def noise_voltage(R, T, B):
    """Tensao de ruido RMS de Johnson-Nyquist."""
    return np.sqrt(4 * k_B * T * R * B)

def snr_linear_from_Tsys(P_signal, T_sys, B):
    """SNR com temperatura total de sistema referida a entrada."""
    P_noise = k_B * T_sys * B
    return P_signal / P_noise

def snr_dB_from_Tsys(P_signal_dBm, T_sys, B):
    """SNR em dB; T_sys ja inclui o ruido adicionado pelo receptor."""
    P_signal_w = 1e-3 * 10**(P_signal_dBm / 10)
    return 10 * np.log10(snr_linear_from_Tsys(P_signal_w, T_sys, B))

# --- Exemplo 1: Ruído termico ---
print("=" * 50)
print("EXEMPLO 1: Potencia de ruído termico")
print("=" * 50)

Bands = [1e3, 10e3, 100e3, 1e6, 10e6, 100e6]
for B in Bands:
    P_dBm = noise_power_dBm(T0, B)
    print(f"B = {B/1e6:>8.2f} MHz  ->  P_n = {P_dBm:10.2f} dBm")

# --- Exemplo 2: SNR em um receptor ---
print("\n" + "=" * 50)
print("EXEMPLO 2: SNR de um receptor de radio")
print("=" * 50)

P_sig_dBm = -100          # sinal de -100 dBm
T_sys = 500               # K (sistema com LNA)
B = 200e3                 # 200 kHz (FM)

SNR = snr_dB_from_Tsys(P_sig_dBm, T_sys, B)
print(f"Sinal: {P_sig_dBm} dBm")
print(f"Banda: {B/1e3:.0f} kHz")
print(f"Temperatura total de sistema: {T_sys} K")
print(f"SNR de saida: {SNR:.1f} dB")

# --- Exemplo 3: Fator de ruido em cascata ---
print("\n" + "=" * 50)
print("EXEMPLO 3: Fator de ruido em cascata (Friis)")
print("=" * 50)

# Estagio 1: LNA, G1 = 20 dB, F1 = 2 dB
# Estagio 2: Filtro, G2 = -3 dB, F2 = 5 dB
# Estagio 3: Amplificador, G3 = 15 dB, F3 = 8 dB
G1_dB, F1_dB = 20, 2
G2_dB, F2_dB = -3, 5
G3_dB, F3_dB = 15, 8

G1 = 10**(G1_dB/10)
F1 = 10**(F1_dB/10)
F2 = 10**(F2_dB/10)
F3 = 10**(F3_dB/10)

F_total = F1 + (F2 - 1)/G1 + (F3 - 1)/(G1 * 10**(G2_dB/10))
F_total_dB = 10*np.log10(F_total)

print(f"F_total = {F_total_dB:.2f} dB")
print(f"  Contribuicoes: F1={F1:.2f} + (F2-1)/G1={(F2-1)/G1:.4f} + (F3-1)/(G1*G2)={(F3-1)/(G1*10**(G2_dB/10)):.4f}")
Output:
==================================================
EXEMPLO 1: Potencia de ruído termico
==================================================
B =     0.00 MHz  ->  P_n =    -143.97 dBm
B =     0.01 MHz  ->  P_n =    -133.97 dBm
B =     0.10 MHz  ->  P_n =    -123.97 dBm
B =     1.00 MHz  ->  P_n =    -113.97 dBm
B =    10.00 MHz  ->  P_n =    -103.97 dBm
B =   100.00 MHz  ->  P_n =     -93.97 dBm

==================================================
EXEMPLO 2: SNR de um receptor de radio
==================================================
Sinal: -100 dBm
Banda: 200 kHz
Temperatura total de sistema: 500 K
SNR de saida: 18.6 dB

==================================================
EXEMPLO 3: Fator de ruido em cascata (Friis)
==================================================
F_total = 2.34 dB
  Contribuicoes: F1=1.58 + (F2-1)/G1=0.0216 + (F3-1)/(G1*G2)=0.1059

3.8.3 Simulação de Espectro de Fonte Chaveada (FFT)

PYTHON
import numpy as np
import matplotlib.pyplot as plt

def switching_wave(D, Vdc, num_harm=50):
    """
    Gera uma onda quadrada de chaveamento e seus coeficientes de Fourier.
    D = duty cycle, Vdc = amplitude DC.
    Retorna coeficientes harmonicos até num_harm.
    """
    a0 = D * Vdc
    harmonics = []
    for n in range(1, num_harm + 1):
        an = (2 * Vdc / (n * np.pi)) * np.sin(n * np.pi * D)
        harmonics.append(an)
    return a0, np.array(harmonics)

def plot_switching_spectrum(D=0.5, Vdc=12.0, max_harm=100):
    """Plota o espectro de uma onda quadrada de chaveamento."""
    a0, harmonics = switching_wave(D, Vdc, max_harm)
    f = np.arange(1, max_harm + 1)
    amp_linear = np.abs(harmonics)

    fig, (ax1, ax2) = plt.subplots(1, 2, figsize=(14, 5))

    # Grafico linear
    ax1.stem(f, amp_linear, linefmt='b-', markerfmt='bo', basefmt='k-')
    ax1.set_xlabel('Numero do Harmônico (n)')
    ax1.set_ylabel('Amplitude (V)')
    ax1.set_title(f'Espectro de Onda Quadrada (D={D}, Vdc={Vdc}V)')
    ax1.grid(True, alpha=0.3)
    ax1.set_xlim(0, max_harm)

    # Grafico em dB
    amp_dB = 20 * np.log10(amp_linear + 1e-12)
    ax2.semilogy(f, amp_linear, 'b-', linewidth=1.5, label='Espectro real')
    ref = amp_linear[0] * (f / f[0])**(-1)
    ax2.semilogy(f, ref, 'r--', linewidth=1, alpha=0.5, label='-20 dB/dec')
    ax2.set_xlabel('Numero do Harmônico (n)')
    ax2.set_ylabel('Amplitude (V) log')
    ax2.set_title('Espectro em Escala Log')
    ax2.legend()
    ax2.grid(True, alpha=0.3)
    ax2.set_xlim(0, max_harm)

    plt.tight_layout()
    plt.savefig('/tmp/spectrum.png', dpi=150)
    plt.show()

    # Decaimento dos harmonicos
    if D == 0.5:
        odd_h = harmonics[::2]  # impares
        ratios = np.abs(odd_h[:-1] / odd_h[1:])
        print(f"Relacoes de decaimento (impares): {ratios[:5]}")
        print(f"Esperado: cada par diminui por fator ~{2*odd_h[0]/odd_h[1]:.1f}")

plot_switching_spectrum()
Output:
Relacoes de decaimento (impares): [3.         1.66666667 1.4        1.28571429 1.22222222]
Esperado: cada par diminui por fator ~-6.0
Figura

3.8.4 Plot de Curva de Ruído Atmosférico vs. Frequência

PYTHON
import numpy as np
import matplotlib.pyplot as plt

def atmos_noise_index(f_MHz, latitude=0, time=6):
    """
    Modelo simplificado de ruido atmosferico (ITU-R P.372).
    f_MHz: frequencia em MHz, latitude: latitude geografica.
    Retorna N em dB acima de kTB.
    """
    f = f_MHz / 1e3  # converter para GHz
    A = 118.0 + 30 * np.log10(f + 0.1)
    B = 20.0 * np.exp(-f * 0.5)
    C = 5.0 * (1 + 0.1 * abs(latitude))
    N = A + B + C - 10 * np.log10(1 + (f / 0.01)**2)
    return np.maximum(N, 0)

# Gerar grafico
f_kHz = np.logspace(0, 5, 1000)  # 1 kHz a 100 MHz
f_MHz = f_kHz / 1e3
N_trop = atmos_noise_index(f_MHz, latitude=0)    # equador
N_mid  = atmos_noise_index(f_MHz, latitude=40)   # temperada
N_pol  = atmos_noise_index(f_MHz, latitude=70)   # polar

fig, ax = plt.subplots(figsize=(10, 6))
ax.semilogx(f_MHz, N_trop, 'b-', linewidth=2, label='Equador (0 deg)')
ax.semilogx(f_MHz, N_mid,  'r-', linewidth=2, label='Temperada (40 deg)')
ax.semilogx(f_MHz, N_pol,  'g-', linewidth=2, label='Polar (70 deg)')
ax.set_xlabel('Frequencia (MHz)')
ax.set_ylabel('Indice de Ruido (dB acima de kTB)')
ax.set_title('Ruido Atmosferico vs. Frequencia (ITU-R P.372)')
ax.legend()
ax.grid(True, which='both', alpha=0.3)
ax.set_xlim(0.01, 100)

# Marcar fc = 10 kHz
ax.axvline(0.01, color='k', linestyle='--', alpha=0.3)
ax.text(0.015, ax.get_ylim()[1]*0.9, 'fc ~ 10 kHz', fontsize=9)
plt.tight_layout()
plt.savefig('/tmp/atmos_noise.png', dpi=150)
plt.show()

# Valores numericos
print("\nValores de indice de ruido atmosferico:")
for f in [0.01, 0.1, 1, 10, 100, 1000, 10000]:
    print(f"  f = {f:>8.2f} MHz: N = {atmos_noise_index(f, 0):6.1f} dB")
Output:
Valores de indice de ruido atmosferico:
  f =     0.01 MHz: N =  113.0 dB
  f =     0.10 MHz: N =  113.0 dB
  f =     1.00 MHz: N =  113.1 dB
  f =    10.00 MHz: N =  111.1 dB
  f =   100.00 MHz: N =  101.0 dB
  f =  1000.00 MHz: N =   96.4 dB
  f = 10000.00 MHz: N =   93.3 dB
Figura

3.8.5 Cálculo de EIRP e Intermodulação de Terceira Ordem

PYTHON
import numpy as np
import matplotlib.pyplot as plt

def eirp_db(P_trans_dBm, G_ant_dBi, L_cable_dB):
    """Calcula EIRP em dBm."""
    return P_trans_dBm + G_ant_dBi - L_cable_dB

def im3_power(P_in_dBm, IP3_dBm):
    """Potencia do sinal de intermodulacao de terceira ordem."""
    return 3 * P_in_dBm - 2 * IP3_dBm

def ip3_from_measurements(P_in_dBm, P_im3_dBm):
    """Determina IP3 a partir de medidas."""
    return (3 * P_in_dBm - P_im3_dBm) / 2

# --- Exemplo: EIRP ---
print("=" * 50)
print("EXEMPLO: Calculo de EIRP")
print("=" * 50)

P_tx = 40        # dBm (10 W)
G_ant = 15       # dBi
L_cable = 2      # dB
EIRP = eirp_db(P_tx, G_ant, L_cable)
print(f"Transmissor: {P_tx} dBm ({10**(P_tx/10)*1e-3:.1f} W)")
print(f"Ganho da antena: {G_ant} dBi")
print(f"Perda do cabo: {L_cable} dB")
print(f"EIRP = {EIRP} dBm ({10**(EIRP/10)*1e-3:.1f} W)")

# --- Exemplo: Intermodulacao ---
print("\n" + "=" * 50)
print("EXEMPLO: Intermodulacao de Terceira Ordem")
print("=" * 50)

IP3 = 30  # dBm
P_in_range = np.linspace(-30, 10, 100)
P_fund = P_in_range
P_IM3 = 3 * P_in_range - 2 * IP3

fig, ax = plt.subplots(figsize=(9, 5))
ax.plot(P_in_range, P_fund, 'b-', linewidth=2, label='Sinal fundamental')
ax.plot(P_in_range, P_IM3, 'r--', linewidth=2, label='IM3 (2f1 - f2)')
ax.axhline(IP3, color='k', linestyle=':', alpha=0.5)
ax.axvline(IP3, color='k', linestyle=':', alpha=0.5)
ax.text(IP3 + 1, IP3 - 3, f'IP3 = {IP3} dBm', fontsize=10)
ax.set_xlabel('Poder de Entrada (dBm)')
ax.set_ylabel('Poder de Saida (dBm)')
ax.set_title('Intermodulacao de Terceira Ordem')
ax.legend()
ax.grid(True, alpha=0.3)
ax.set_xlim(-30, 10)
ax.set_ylim(-80, 35)
plt.tight_layout()
plt.savefig('/tmp/im3.png', dpi=150)
plt.show()

# Determinar IP3 a partir de medidas
P_in_meas = -10
P_im3_meas = -50
IP3_calc = ip3_from_measurements(P_in_meas, P_im3_meas)
print(f"P_in = {P_in_meas} dBm, P_IM3 = {P_im3_meas} dBm")
print(f"IP3 calculado = {IP3_calc} dBm")
Output:
==================================================
EXEMPLO: Calculo de EIRP
==================================================
Transmissor: 40 dBm (10.0 W)
Ganho da antena: 15 dBi
Perda do cabo: 2 dB
EIRP = 53 dBm (199.5 W)

==================================================
EXEMPLO: Intermodulacao de Terceira Ordem
==================================================
P_in = -10 dBm, P_IM3 = -50 dBm
IP3 calculado = 10.0 dBm
Figura

3.9 Lista de Exercícios Propostos

Use, quando necessário, $k_B = 1{,}381 \times 10^{-23}\,\text{J/K}$, $T_0 = 290\,\text{K}$, $c = 2{,}998 \times 10^8\,\text{m/s}$, $\eta_0 = 376{,}7\,\Omega$.

E.1 — Calcule a potência de ruído térmico disponível de um resistor a $T = 300\,\text{K}$ em uma banda de $B = 1\,\text{MHz}$. Expresse o resultado em (a) watts, (b) dBm, (c) dBµW.

E.2 — Uma antena recebe ruído atmosférico com $T_{\text{sky}} = 15\,000\,\text{K}$ a $f = 5\,\text{MHz}$. O receptor tem fator de ruído $F = 4\,\text{dB}$ e banda $B = 10\,\text{kHz}$. Calcule (a) a temperatura de ruído equivalente $T_e$, (b) a temperatura total do sistema, (c) a potência de ruído na entrada do receptor.

E.3 — Mostre que para uma onda quadrada simétrica ($D = 0{,}5$), os harmônicos pares são nulos. Deduza a amplitude do 1º, 3º e 5º harmônico.

E.4 — Um conversor buck opera com $V_{dc} = 48\,\text{V}$, $f_s = 100\,\text{kHz}$ e $D = 0{,}35$. Calcule (a) a componente DC da tensão, (b) a amplitude do 1º harmônico, (c) a amplitude do 5º harmônico, (d) a razão entre o 1º harmônico e a componente DC em dB.

E.5 — Um MOSFET apresenta uma rampa aproximadamente linear de $0$ a $600\,\text{V}$ em $20\,\text{ns}$. Uma capacitância parasita $C_p=2\,\text{pF}$ acopla o nó a uma entrada. Calcule (a) $dV/dt$ e (b) a corrente durante a rampa. (c) A aproximação $v=iZ$ com $Z=10\,\text{k}\Omega$ produz qual valor? Explique por que ele é apenas uma estimativa local em frequência/tempo e quais elementos faltam para prever a forma e o pico reais.

E.6 — Um transmissor de $50\,\text{W}$ alimenta uma antena com ganho $G = 12\,\text{dBi}$ através de um cabo com perda de $1{,}5\,\text{dB}$. Calcule (a) o EIRP em dBW, (b) o EIRP em watts, (c) a densidade de potência a $1\,\text{km}$ (assumindo irradiação isotrópica).

E.7 — Dois transmissores operam em $f_1 = 900\,\text{MHz}$ e $f_2 = 901\,\text{MHz}$ através de um amplificador não-linear com $IP3 = 25\,\text{dBm}$. Calcule (a) as frequências de intermodulação de terceira ordem $f_{IM3}$ e $f_{IM3}'$, (b) se alguma cai dentro da banda $899\text{--}902\,\text{MHz}$.

E.8 — Um sistema de recepção tem três estágios: LNA ($G_1 = 25\,\text{dB}$, $F_1 = 1{,}5\,\text{dB}$), filtro ($G_2 = -1{,}5\,\text{dB}$, $F_2 = 3\,\text{dB}$), receptor ($G_3 = 30\,\text{dB}$, $F_3 = 6\,\text{dB}$). Calcule o fator de ruído total usando a fórmula de Friis.

E.9 — Mostre que o ruído térmico de Johnson-Nyquist tem densidade espectral plana (white noise). Considere um resistor $R$ conectado a um amperímetro ideal de banda infinita. Explique por que a potência total de ruído diverge e como isso se resolve fisicamente.

E.10 — Um forno de micro-ondas opera em $2{,}45\,\text{GHz}$ com potência de $1000\,\text{W}$. Calcule (a) o comprimento de onda, (b) a energia de um fóton em eV, (c) a densidade de potência a $0{,}5\,\text{m}$ (assumindo $G = 0\,\text{dBi}$ isotrópico).

E.11 (desafio) — Deduza que, para uma transição de chaveamento com tempo de subida $\tau_r$, a frequência de corte do espectro de emissão é $f_{\text{max}} \approx 0{,}35/\tau_r$. Dica: considere o espectro de um pulso gaussiano de largura $\tau_r$.

E.12 (desafio) — Um enunciado afirma: “um receptor com $B=1\,\text{MHz}$, $P_{\min}=-120\,\text{dBm}$ e $T_{\text{sys}}=500\,\text{K}$ permite calcular $F$, SNR de saída e $T_e$”. (a) Mostre por que os dados são insuficientes e parcialmente redundantes; (b) calcule $k_BT_{\text{sys}}B$; (c) determine a SNR mínima implícita; (d) explique quais dados adicionais permitiriam obter $F$ e $T_e$ sem dupla contagem.

3.10 Gabarito

3.10.1 E1

Dados: $T = 300\,\text{K}$, $B = 1\,\text{MHz} = 10^6\,\text{Hz}$.

(a) Potência em watts:

$$ P_n = k_B T B = (1{,}381 \times 10^{-23}) \cdot 300 \cdot 10^6 = 4{,}143 \times 10^{-15}\,\text{W} $$

(b) Potência em dBm:

$$ P_n\,[\text{dBm}] = 10\log_{10}\left(\frac{4{,}143 \times 10^{-15}}{10^{-3}}\right) = 10\log_{10}(4{,}143 \times 10^{-12}) = \boxed{-113{,}8\,\text{dBm}} $$

(c) Potência em dBµW:

$$ P_n\,[\text{dB\mu W}] = 10\log_{10}(4{,}143 \times 10^{-9}) = \boxed{-83{,}8\,\text{dB\mu W}} $$

3.10.2 E2

Dados: $T_{\text{sky}} = 15\,000\,\text{K}$, $F = 4\,\text{dB}$, $B = 10^4\,\text{Hz}$.

(a) $F_{\text{lin}} = 10^{4/10} = 2{,}512$. $T_e = (2{,}512 - 1) \cdot 290 = \boxed{438\,\text{K}}$.

(b) $T_{\text{sys}} = 15\,000 + 438 = \boxed{15\,438\,\text{K}}$.

(c) $P_n = k_B T_{\text{sys}} B = 2{,}132 \times 10^{-15}\,\text{W} = \boxed{-116{,}7\,\text{dBm}}$.

3.10.3 E3

Para $D = 0{,}5$:

$$ V_n = \frac{2V_{dc}}{n\pi} |\sin(n\pi/2)| $$

Para $n$ par, $n=2m$: $\sin(m\pi) = 0$, logo $V_{2m} = 0$. Harmônicos pares são nulos.

Para $n$ ímpar: $|\sin| = 1$:

$$ \boxed{V_1 = \frac{2V_{dc}}{\pi},\; V_3 = \frac{2V_{dc}}{3\pi},\; V_5 = \frac{2V_{dc}}{5\pi}} $$

3.10.4 E4

Dados: $V_{dc} = 48\,\text{V}$, $D = 0{,}35$.

(a) $V_{\text{DC}} = 0{,}35 \cdot 48 = \boxed{16{,}8\,\text{V}}$.

(b) $V_1 = \frac{96}{\pi} |\sin(0{,}35\pi)| = 30{,}56 \cdot 0{,}891 = \boxed{27{,}2\,\text{V}}$.

(c) $V_5 = \frac{96}{5\pi} |\sin(1{,}75\pi)| = 6{,}11 \cdot 0{,}707 = \boxed{4{,}32\,\text{V}}$.

(d) $20\log_{10}(27{,}2/16{,}8) = \boxed{4{,}19\,\text{dB}}$.

3.10.5 E5

Dados: $V = 600\,\text{V}$, $t_r = 20\,\text{ns}$, $C_p = 2\,\text{pF}$, $Z = 10\,\text{k}\Omega$.

(a) $\frac{dV}{dt} = \frac{600}{20 \times 10^{-9}} = \boxed{30\,\text{V/ns}}$.

(b) $i_{\text{coupled}} = 2 \times 10^{-12} \cdot 3 \times 10^{10} = \boxed{60\,\text{mA}}$.

(c) A substituição direta dá $v=iZ=(60\,\text{mA})(10\,\text{k}\Omega)=\boxed{600\,\text{V}}$. Esse resultado extremo é um alerta sobre o modelo, não uma previsão completa: $Z$ deve ser a impedância complexa na faixa espectral da borda, e faltam capacitância da vítima, impedância da fonte, diodos de proteção, indutâncias, forma real da borda e retorno. A tensão não permanece em 600 V; é preciso resolver o circuito transitório (ou medir) para obter pico e duração.

3.10.6 E6

Dados: $P = 50\,\text{W} = 16{,}99\,\text{dBW}$, $G = 12\,\text{dBi}$, $L = 1{,}5\,\text{dB}$.

(a) $EIRP = 16{,}99 + 12 - 1{,}5 = \boxed{27{,}5\,\text{dBW}}$.

(b) $EIRP = 10^{2{,}75} = \boxed{562\,\text{W}}$.

(c) $S = \frac{562}{4\pi \cdot 10^6} = 4{,}47 \times 10^{-5}\,\text{W/m}^2 = \boxed{44{,}7\,\mu\text{W/m}^2}$.

3.10.7 E7

(a) $f_{IM3} = 2 \cdot 900 - 901 = \boxed{899\,\text{MHz}}$. $f_{IM3}' = 2 \cdot 901 - 900 = \boxed{902\,\text{MHz}}$.

(b) Ambas caem nos limites da banda $899\text{--}902\,\text{MHz}$. Caso crítico: adjacentes ao canal útil.

3.10.8 E8

$$ F_1 = 1{,}413,\; G_1 = 316{,}2,\; F_2 = 1{,}995,\; G_2 = 0{,}708,\; F_3 = 3{,}981 $$
$$ F_{\text{total}} = 1{,}413 + \frac{0{,}995}{316{,}2} + \frac{2{,}981}{316{,}2 \cdot 0{,}708} = 1{,}413 + 0{,}0031 + 0{,}0133 = \boxed{1{,}430} $$
$$ F_{\text{total,dB}} = \boxed{1{,}55\,\text{dB}} $$

3.10.9 E9

$S_V(f) = 4k_BTR$ é constante (independente de $f$), logo é ruído branco. A potência total $P = \int_0^{\infty} S_V(f)\,\frac{1}{4R}\,df$ diverge. Resolução física: para $f \gtrsim k_B T/h \approx 6\,\text{THz}$, a quantização exige a fórmula de Planck:

$$ S_V(f) = 4R \cdot \frac{hf}{e^{hf/(k_B T)} - 1} $$

que decai exponencialmente, tornando a integral convergente. A fórmula clássica é válida para $hf \ll k_B T$.

3.10.10 E10

Dados: $f = 2{,}45\,\text{GHz}$, $P = 1000\,\text{W}$.

(a) $\lambda = \frac{c}{f} = \frac{2{,}998 \times 10^8}{2{,}45 \times 10^9} = \boxed{12{,}2\,\text{cm}}$.

(b) $E = hf = (6{,}626 \times 10^{-34})(2{,}45 \times 10^9) / (1{,}602 \times 10^{-19}) = \boxed{10{,}1\,\mu\text{eV}}$.

(c) $S = \frac{1000}{4\pi \cdot 0{,}25} = \frac{1000}{\pi} = \boxed{318\,\text{W/m}^2}$.

3.10.11 E11

Pulso gaussiano: $p(t) = \exp(-t^2/(2\tau_r^2))$. Sua transformada:

$$ P(f) = \tau_r\sqrt{2\pi}\,\exp(-2\pi^2 f^2 \tau_r^2) $$

Espectro decai exponencialmente. Definindo $f_{\text{max}}$ quando o espectro cai a $1/e$ do valor em DC:

$$ \exp(-2\pi^2 f_{\text{max}}^2 \tau_r^2) = e^{-1} \Rightarrow 2\pi^2 f_{\text{max}}^2 \tau_r^2 = 1 $$
$$ f_{\text{max}} = \frac{1}{\pi\sqrt{2}\,\tau_r} \approx \frac{0{,}225}{\tau_r} $$

Usando o critério mais conservador $f_{\text{max}} \approx \frac{0{,}35}{\tau_r}$ (baseado em pulso gaussiano de largura FWHM), obtém-se o resultado padrão da literatura EMC. $\blacksquare$

3.10.12 E12

(a) $T_{\text{sys}}$ já representa o ruído total referido à entrada; multiplicá-lo novamente por $F$ seria dupla contagem. Além disso, sensibilidade só tem significado para uma SNR/BER/critério de detecção especificado. Sem separar $T_{\text{ant}}$ e $T_e$, não é possível inferir $F$.

(b) $k_BT_{\text{sys}}B=(1{,}381\times10^{-23})(500)(10^6)=6{,}905\times10^{-15}\,\text{W}=\boxed{-111{,}6\,\text{dBm}}$.

(c) $P_{\min}=-120\,\text{dBm}=10^{-15}\,\text{W}$ implicaria

$$ (SNR)_{\min}=\frac{P_{\min}}{k_BT_{\text{sys}}B}=0{,}145=\boxed{-8{,}39\,\text{dB}}. $$

Isso não é automaticamente impossível: sistemas codificados ou detectores integradores podem operar com SNR numérica negativa, dependendo da definição de banda, taxa e critério. O resultado exige que esses elementos sejam declarados.

(d) Para obter $F$ e $T_e$, forneça $T_{\text{ant}}$ e deixe claro que $T_{\text{sys}}=T_{\text{ant}}+T_e$ no mesmo plano de referência. Então $T_e=T_{\text{sys}}-T_{\text{ant}}$ e $F=1+T_e/T_0$. Alternativamente, forneça diretamente $F$ e use a forma baseada em $T_0$.