3. Potencial Elétrico, Energia e Dipolo Elétrico
3. Potencial Elétrico, Energia e Dipolo Elétrico
Eletromagnetismo — Apostila de Curso
Tópicos: Energia Potencial Elétrica · Gradiente do Potencial Elétrico · Equação de Poisson · Energia Armazenada no Campo Elétrico · Dipolo Elétrico
3.1 Objetivos de Aprendizagem
Ao final deste capítulo, você será capaz de:
- [ ] Calcular o trabalho e a energia potencial elétrica em campos eletrostáticos.
- [ ] Relacionar o campo elétrico ao potencial através da relação $\vec E = -\nabla V$.
- [ ] Resolver a equação de Poisson e Laplace para distribuições de carga.
- [ ] Calcular a energia armazenada no campo elétrico.
- [ ] Analisar dipolos elétricos: potencial, campo, torque e energia em campos externos.
3.2 Intuição Física: Por que Potencial Elétrico?
O potencial elétrico $V$ é uma ferramenta matemática poderosa porque:
- É um escalar, muito mais fácil de calcular do que o campo vetorial $\vec E$.
- Uma vez conhecido $V$, o campo é obtido por derivada: $\vec E = -\nabla V$.
- A diferença de potencial (tensão) é o que "impulsiona" correntes em circuitos elétricos.
- O potencial é análogo à "altitude" em um campo gravitacional: cargas positivas "caem" de potencial alto para baixo, como objetos caem de alta para baixa altitude.
3.3 Aplicações no Mundo Real
| Conceito | Aplicação Prática |
|---|---|
| Potencial elétrico | Tensão em circuitos eletrônicos e distribuição de energia |
| Equação de Poisson/Laplace | Projeto de capacitores, eletrodos e blindagem eletromagnética |
| Energia no campo elétrico | Armazenamento de energia em capacitores e supercapacitores |
| Dipolo elétrico | Moléculas polares (água), antenas dipolo, ressonância magnética |
| Expansão multipolar | Simulação de campos em sistemas complexos (geofísica, astrofísica) |
3.4 Antes de começar
Ao final, você deve relacionar trabalho, potencial e campo, usar Poisson/Laplace, calcular energia eletrostática e reconhecer os limites da aproximação de dipolo. Diagnóstico: potencial nulo em um ponto garante campo nulo nesse ponto? Evidência mínima: derivar $\vec E=-\nabla V$, comparar potencial exato e aproximado e conferir sinais de energia de dipolos.
3.5 Trabalho e Energia Potencial Elétrica
3.5.1 O campo eletrostático é conservativo
O trabalho realizado pela força elétrica ao mover uma carga de teste $q_0$ de um ponto $A$ até $B$ é:
Para uma carga puntiforme fonte $q$ na origem, com $\vec{E} = \frac{q}{4\pi\varepsilon_0 r^2}\hat{r}$, escolhendo um caminho radial (o resultado independe do caminho, como se mostra a seguir):
O resultado depende apenas dos pontos inicial e final, não do caminho percorrido — a marca registrada de uma força conservativa. Isso decorre matematicamente do fato de que $\vec{E}$ de uma carga puntiforme é irrotacional:
(pode-se verificar isso diretamente calculando o rotacional de $\hat{r}/r^2$ em coordenadas esféricas, ou reconhecer que qualquer campo puramente radial com dependência apenas de $r$ tem rotacional nulo). Por superposição, o campo de qualquer distribuição estática de cargas também é irrotacional — propriedade que caracteriza a eletrostática frente à eletrodinâmica geral (onde $\nabla\times\vec{E} = -\partial\vec{B}/\partial t \neq 0$, Lei de Faraday).
3.5.2 Energia potencial elétrica
Como a força é conservativa, define-se a energia potencial elétrica $U$ tal que $W_{A\to B} = -(U_B - U_A) = U_A - U_B$. Comparando com o resultado acima:
Convencionalmente, toma-se $U\to 0$ quando $r\to\infty$, eliminando a constante:
3.6 O Potencial Elétrico e o Gradiente
3.6.1 Definição
Assim como o campo elétrico é a força por unidade de carga, o potencial elétrico $V$ é a energia potencial por unidade de carga:
Para uma carga puntiforme (com referência no infinito):
Por superposição, para uma distribuição contínua:
Note que $V$ é um escalar — em geral muito mais simples de calcular que $\vec{E}$ (vetor), o que faz do potencial uma ferramenta intermediária poderosa.
3.6.2 Relação campo–potencial: o gradiente
Da definição $V(\vec{r}) = -\int_{\text{ref}}^{\vec{r}}\vec{E}\cdot d\vec{\ell}$, a variação infinitesimal de $V$ ao longo de um deslocamento $d\vec{\ell}$ é:
Mas, por definição de gradiente, $dV = \nabla V\cdot d\vec{\ell}$ para qualquer deslocamento $d\vec{\ell}$. Como isso vale para qualquer direção de $d\vec{\ell}$, conclui-se:
Em coordenadas cartesianas:
Verificação de consistência: como $\nabla\times(\nabla V) \equiv 0$ para qualquer função escalar $V$ (identidade vetorial), a relação $\vec{E}=-\nabla V$ automaticamente garante $\nabla\times\vec{E}=0$, coerente com a Seção “O campo eletrostático é conservativo”.
3.7 Equação de Poisson e de Laplace
3.7.1 Dedução
Partindo da Lei de Gauss na forma pontual (arquivo anterior):
e substituindo $\vec{E} = -\nabla V$:
onde $\nabla^2 = \nabla\cdot\nabla$ é o operador laplaciano, que em cartesianas é:
Em regiões sem carga livre ($\rho=0$), a equação se reduz à Equação de Laplace:
3.7.2 Por que essas equações são centrais
A Equação de Poisson/Laplace transforma um problema de eletrostática (encontrar $\vec{E}$ dada $\rho$) em um problema de valor de contorno para uma EDP escalar de segunda ordem. Com dados de Dirichlet adequados, $V$ é único. Com dados puramente de Neumann, a solução — quando existe — é única até uma constante aditiva, que não altera $\vec E=-\nabla V$; além disso, fonte e fluxo normal prescrito devem satisfazer a condição de compatibilidade obtida ao integrar Poisson e aplicar Gauss. Isso justifica métodos como separação de variáveis, funções de Green e imagens, sem esconder as condições de existência.
3.8 Expansão multipolar
3.8.1 Expansão da integral de Poisson — monopolo e dipolo
A solução da equação de Poisson pode ser escrita como:
Quando o ponto de observação está longe da distribuição de carga ($r\gg r'$), podemos expandir $\dfrac{1}{|\vec{r}-\vec{r}'|}$ em série de Taylor. Usando a identidade:
Com $\nabla\left(\dfrac{1}{r}\right) = -\dfrac{\hat{r}}{r^2}$ e $\dfrac{\partial^2}{\partial x_i\partial x_j}\left(\dfrac{1}{r}\right) = \dfrac{3x_ix_j-r^2\delta_{ij}}{r^5}$, obtemos:
Substituindo na integral de Poisson, cada termo gera uma contribuição diferente:
Termo monopolo ($1/r$):
É o potencial de uma carga puntiforme total — domina a grandes distâncias se $Q_{\text{total}}\neq0$.
Termo dipolo ($\vec{r}\cdot\vec{r}'/r^3$):
com $\vec{p} = \displaystyle\int \vec{r}'\,\rho(\vec{r}')\,dV'$ — o momento de dipolo da distribuição. Este termo domina quando a carga total é zero (ou próxima de zero).
Termo quadrupolo:
com o tensor de quadrupolo $Q_{ij} = \displaystyle\int\left(3x_i'x_j'-r'^2\delta_{ij}\right)\rho(\vec{r}')\,dV'$.
Regra geral: cada termo multipolar adicional cai mais rápido ($1/r^{\ell+1}$), de modo que a grande distância, apenas o primeiro termo não-nulo é relevante.
3.8.2 Solução numérica por relaxação (diferenças finitas)
Discretizando o laplaciano 2D em uma malha regular de espaçamento $h$:
Impondo $\nabla^2 V = 0$ (região sem carga), obtém-se a regra da média:
que é a base do método de relaxação de Jacobi/Gauss-Seidel: cada ponto converge para a média de seus vizinhos, sujeito às condições de contorno fixas.
import numpy as np
import matplotlib.pyplot as plt
def resolver_laplace_2d(N=100, iters=6000, V_top=100.0, V_bottom=-100.0,
V_left=0.0, V_right=0.0):
"""Resolve Laplace em uma caixa quadrada com condições de Dirichlet."""
V = np.zeros((N, N))
V[0, :] = V_top
V[-1, :] = V_bottom
V[:, 0] = V_left
V[:, -1] = V_right
for _ in range(iters):
V_new = V.copy()
V_new[1:-1,1:-1] = 0.25*(V[2:,1:-1]+V[:-2,1:-1]+V[1:-1,2:]+V[1:-1,:-2])
V_new[0,:], V_new[-1,:] = V_top, V_bottom
V_new[:,0], V_new[:,-1] = V_left, V_right
V = V_new
return V
V = resolver_laplace_2d()
Ey, Ex = np.gradient(-V) # E = -grad(V); np.gradient devolve (d/d_linha, d/d_coluna)
fig, axs = plt.subplots(1, 2, figsize=(11,5))
c = axs[0].imshow(V, cmap='RdBu_r')
axs[0].set_title('Potencial V (relaxação numérica)')
plt.colorbar(c, ax=axs[0])
axs[1].streamplot(np.arange(V.shape[1]), np.arange(V.shape[0]), Ex, Ey,
color='k', density=1.2)
axs[1].set_title('Campo E = -∇V (derivado numericamente)')
axs[1].invert_yaxis()
plt.tight_layout()
3.9 Energia Armazenada no Campo Elétrico
3.9.1 Energia para montar uma distribuição de cargas
Considere trazer cargas do infinito, uma a uma, para montar uma distribuição final. A energia total é o trabalho necessário para isso. Para $N$ cargas puntiformes, o resultado (bem conhecido) é:
onde $V_i$ é o potencial no local da carga $i$ devido a todas as outras cargas. O fator $\frac12$ evita contar cada par de cargas duas vezes.
Para uma distribuição contínua suficientemente regular, a soma vira integral:
Para cargas puntiformes, $V_i$ na soma exclui o potencial da própria carga. Já a integral de $E^2$ inclui a autoenergia, que diverge no modelo clássico de ponto. Portanto, a equivalência abaixo vale diretamente para distribuições contínuas de energia finita; para pontos, deve-se remover/regularizar as autoenergias antes de comparar apenas a energia de interação.
3.9.2 Reescrevendo em termos do campo
Usando $\rho = \varepsilon_0\nabla\cdot\vec{E}$ (Lei de Gauss pontual):
Usa-se a identidade vetorial $\nabla\cdot(V\vec{E}) = V(\nabla\cdot\vec{E}) + \vec{E}\cdot\nabla V$, isto é, $(\nabla\cdot\vec{E})V = \nabla\cdot(V\vec{E}) - \vec{E}\cdot\nabla V$:
Aplicando o Teorema do Divergente ao primeiro termo (convertendo em integral de superfície) e usando $\nabla V = -\vec{E}$ no segundo:
Se estendermos $V$ (o volume de integração) para todo o espaço, a integral de superfície é avaliada no infinito, onde $V\to 1/r$ e $E\to 1/r^2$, enquanto a área cresce como $r^2$ — o integrando cai como $1/r$ e a integral de superfície se anula quando $r\to\infty$. Resta:
3.9.3 Interpretação física: energia "no campo"
Essa reformulação é conceitualmente profunda: em vez de atribuir a energia às cargas (integral sobre $\rho V$, restrita às regiões com carga), pode-se atribuí-la ao campo (integral sobre $E^2$, estendida a todo o espaço, mesmo onde não há carga). Essa segunda visão é a que sobrevive na eletrodinâmica geral e nas ondas eletromagnéticas: um campo de radiação transporta energia através do espaço vazio, longe de qualquer carga — algo inexplicável na primeira visão, mas natural na densidade de energia $u_E = \frac12\varepsilon_0 E^2$ (que reaparecerá, com um termo magnético análogo, na Parte 2 da apostila).
3.10 Dipolo Elétrico
3.10.1 Definição e momento de dipolo
Um dipolo elétrico é o sistema de duas cargas puntiformes $+q$ e $-q$ separadas por um vetor deslocamento $\vec{d}$ (apontando da carga negativa para a positiva). Define-se o momento de dipolo:
3.10.2 Dedução do potencial em campo distante
Coloque $+q$ em $\vec{d}/2$ e $-q$ em $-\vec{d}/2$. O potencial em um ponto $\vec{r}$ (com $r\gg d$):
onde $r_\pm = |\vec{r}\mp\vec{d}/2|$. Expandindo $r_\pm$ em série para $d\ll r$, usando lei dos cossenos com $\theta$ o ângulo entre $\vec{r}$ e $\vec{d}$:
Logo:
Note a queda com $1/r^2$ (mais rápida que $1/r$ da carga puntiforme) — reflexo do cancelamento parcial entre as cargas opostas a grandes distâncias.
3.10.3 Campo elétrico do dipolo
Aplicando $\vec{E} = -\nabla V$ em coordenadas esféricas ($\nabla = \hat{r}\partial_r + \hat\theta\frac{1}{r}\partial_\theta$, sem dependência em $\phi$ por simetria azimutal):
O campo cai como $1/r^3$ — mais rápido ainda que o potencial, como esperado (o campo é derivada do potencial).
3.10.4 Torque e energia em um campo externo
Em um campo externo uniforme $\vec{E}_{ext}$, a força líquida sobre o dipolo é nula (as forças em $+q$ e $-q$ se cancelam), mas há um torque líquido, pois as forças atuam em pontos diferentes:
Esse torque tende a alinhar $\vec{p}$ com $\vec{E}_{ext}$. A energia potencial associada (trabalho para girar o dipolo de uma orientação de referência perpendicular a $\vec{E}_{ext}$) é:
mínima (mais estável) quando $\vec{p}$ está paralelo a $\vec{E}_{ext}$ — princípio por trás da polarização de dielétricos (próximo arquivo) e de fenômenos como a ressonância magnética/elétrica em moléculas polares.
3.10.5 Exemplo Resolvido Passo a Passo: Torque e Energia de um Dipolo em Campo Externo
Problema: Um dipolo elétrico com momento $p = 5\times10^{-29}\,\text{C}\cdot\text{m}$ é colocado em um campo elétrico externo uniforme $E_{ext} = 10^6\,\text{V/m}$. Determine: (a) o torque sobre o dipolo quando ele faz um ângulo $\theta = 60°$ com o campo; (b) o trabalho necessário para girar o dipolo da posição $\theta = 60°$ para $\theta = 0°$ (paralelo ao campo);
Passo 1: Calcular o torque $\tau$ para $\theta = 60°$.
O torque sobre um dipolo em um campo externo é dado por:
O módulo do torque é:
Substituindo os valores:
Como $\sin(60°) = \sqrt{3}/2 \approx 0{,}866$:
Resposta (a): $\boxed{\tau \approx 4{,}33\times10^{-23}\,\text{N}\cdot\text{m}}$
Passo 2: Calcular o trabalho para girar de $\theta = 60°$ para $\theta = 0°$.
A energia potencial de um dipolo em um campo externo é:
O trabalho realizado por um agente externo para girar o dipolo quase-estaticamente de $\theta_i$ para $\theta_f$ é:
Para $\theta_i = 60°$ e $\theta_f = 0°$:
O trabalho externo é:
O sinal negativo indica que o campo elétrico realiza trabalho positivo sobre o dipolo enquanto ele gira espontaneamente para o alinhamento; o agente externo precisa apenas "segurar" o dipolo para que o processo seja quase-estático, realizando trabalho negativo.
Resposta (b): $\boxed{W_{ext} = -2{,}5\times10^{-23}\,\text{J}}$
3.10.6 Dipolo em campo não-uniforme: força líquida
No caso de campo não-uniforme, as forças em $+q$ e $-q$ não se cancelam perfeitamente. Para um dipolo pequeno $\vec{p}$ em um campo externo $\vec{E}_{ext}$:
A força sobre $+q$ (na posição $\vec{r}+\vec{d}/2$):
A força sobre $-q$ (na posição $\vec{r}-\vec{d}/2$):
Força líquida (expandindo em série de Taylor, mantendo apenas o termo linear):
Em componente:
A força é atrativa (negativa) para $p,q$ do mesmo sinal — o dipolo é puxado em direção à carga, pois o campo é mais forte do lado da carga oposta ao dipolo.
3.10.7 Energia de interação entre dois dipolos
A energia potencial de um dipolo $\vec{p}_1$ no campo de outro dipolo $\vec{p}_2$ (na posição $\vec{r}$, com $r\gg d_1,d_2$):
Esta expressão mostra que a interação entre dipolos é anisotrópica e de longo alcance ($1/r^3$ para o potencial, $1/r^4$ para a força).
Casos especiais:
- Dois dipolos paralelos e alinhados com a linha que os separa ($\vec{p}_1\parallel\vec{p}_2\parallel\hat{r}$): $U = -\dfrac{2p_1p_2}{4\pi\varepsilon_0 r^3}$ — atrativa (configuração "cabeça-cauda": o polo positivo de um fica próximo do polo negativo do outro).
- Dois dipolos paralelos e perpendiculares a $\hat{r}$: $U = \dfrac{p_1p_2}{4\pi\varepsilon_0 r^3}$ — repulsiva (configuração "lado a lado": polos de mesmo sinal ficam mais próximos entre si).
- Dois dipolos perpendiculares entre si e a $\hat{r}$: $U=0$ — nenhuma interação de primeira ordem.
Este resultado é fundamental para entender forças intermoleculares (forças de van der Waals), onde dipolos induzidos e permanentes interagem.
import numpy as np
import matplotlib.pyplot as plt
x = y = np.linspace(-3, 3, 180); X, Y = np.meshgrid(x, y)
def campo(q, x0):
dx, r2 = X-x0, (X-x0)**2 + Y**2 + .02
return q*dx/r2**1.5, q*Y/r2**1.5
Ep = campo(1, -1); En = campo(-1, 1)
Ex, Ey = Ep[0]+En[0], Ep[1]+En[1]
fig, ax = plt.subplots(figsize=(7, 5))
ax.streamplot(x, y, Ex, Ey, density=1.45, color=np.log1p(np.hypot(Ex,Ey)), cmap="viridis")
ax.scatter([-1,1],[0,0],s=140,c=["#dc2626","#2563eb"],zorder=3)
ax.text(-1.12,.15,"+Q"); ax.text(.9,.15,"−Q"); ax.set_aspect("equal")
ax.set(title="Linhas de campo de um dipolo elétrico", xlabel="$x$", ylabel="$y$")
plt.tight_layout()
3.11 Exercícios Resolvidos em Python
3.11.1 Roteiro computacional
Objetivo. Comparar potenciais exatos e expansões multipolares, verificar $\vec E=-\nabla V$ e calcular energias de interação.
Como executar. Requer numpy e matplotlib. Para cada aproximação, registre $r/d$ e o erro relativo; isso explicita o domínio de validade.
import numpy as np
import matplotlib.pyplot as plt
eps0 = 8.854e-12
k = 1/(4*np.pi*eps0)
# === Seção “Expansão multipolar”: Expansão multipolar ===
def potencial_monopolo(r, Q):
"""Potencial do termo monopolo (carga total)."""
return k * Q / r
def potencial_dipolo(r, theta, p):
"""Potencial do termo dipolo."""
return k * p * np.cos(theta) / r**2
def potencial_quadrupolo(z, Qzz):
"""Potencial do termo quadrupolo (componente Qzz, no eixo z)."""
return k * Qzz / (2 * z**3)
# Distribuição de 4 cargas: +q,-q,+q,-q em um quadrado 2x2 (quadrupolo puro)
def potencial_quadrupolo_exato(x, y, q, a):
"""Potencial exato de 4 cargas nos vértices de um quadrado."""
V = 0
pos_charges = [(a,a,q), (-a,a,-q), (a,-a,-q), (-a,-a,q)]
for sx, sy, qc in pos_charges:
r = np.sqrt((x-sx)**2 + (y-sy)**2)
V += k*qc/r
return V
# Verificação: dipolo de cargas +q/-q ao longo de z, observado no próprio eixo
def potencial_dipolo_exato_eixo(z, q, d):
"""Potencial exato de um dipolo centrado na origem e orientado em z."""
V_plus = k*q/np.sqrt((z-d/2)**2)
V_minus = -k*q/np.sqrt((z+d/2)**2)
return V_plus + V_minus
q, d = 1e-9, 0.01 # dipolo com momento p=q*d
z = 1.0 # z >> d
p = q*d
V_exato = potencial_dipolo_exato_eixo(z, q, d)
V_aprox_dipolo = potencial_dipolo(z, 0, p) # theta=0 no eixo: cos(theta)=1
print(f"Potencial exato (2 cargas no eixo z): {V_exato:.6e} V")
print(f"Potencial dipolo (no eixo): {V_aprox_dipolo:.6e} V")
print(f"Erro relativo da aproximação: {abs(V_aprox_dipolo/V_exato-1):.3e}")
# === Seção “Energia Armazenada no Campo Elétrico”: Energia armazenada ===
def energia_cargas_pontuais(charges, positions):
"""Energia potencial de um sistema de cargas puntiformes."""
U = 0.0
n = len(charges)
for i in range(n):
for j in range(i+1, n):
r_ij = np.sqrt(sum((positions[i][k]-positions[j][k])**2 for k in range(2)))
U += k * charges[i] * charges[j] / r_ij
return U
# 3 cargas: +q, +q, -q em triângulo equilátero de lado a
a = 1e-2
charges = [1e-9, 1e-9, -1e-9]
positions = [(0,0), (a,0), (a/2, a*np.sqrt(3)/2)]
U = energia_cargas_pontuais(charges, positions)
print(f"\nEnergia do sistema de 3 cargas: {U:.6e} J")
# === Seção “Dipolo Elétrico”: Dipolo ===
def campo_dipolo(r, theta, p):
Er = 2*k*p*np.cos(theta)/r**3
Etheta = k*p*np.sin(theta)/r**3
return Er, Etheta
def potencial_exato_2cargas(x, y, q, d):
r_mais = np.sqrt(x**2 + (y - d/2)**2)
r_menos = np.sqrt(x**2 + (y + d/2)**2)
return k*q*(1/r_mais - 1/r_menos)
# Comparação numérica: aproximação de dipolo vs. cálculo exato
q, d = 1e-9, 1e-3
p = q*d
theta = np.deg2rad(30)
r = 2.0
V_aprox = potencial_dipolo(r, theta, p)
x, y = r*np.sin(theta), r*np.cos(theta)
V_exato = potencial_exato_2cargas(x, y, q, d)
print(f"\nV aproximado (dipolo ideal): {V_aprox:.6e} V")
print(f"V exato (duas cargas): {V_exato:.6e} V")
print(f"Erro relativo: {abs(V_aprox-V_exato)/abs(V_exato):.4%}")
# Verificação numérica de E = -grad(V) por diferenças finitas
def V_dipolo_cartesiano(x, y, p):
r = np.sqrt(x**2+y**2)
theta = np.arctan2(x, y)
return k*p*np.cos(theta)/r**2
h = 1e-6
x0, y0 = 0.5, 0.8
dVdx = (V_dipolo_cartesiano(x0+h,y0,p) - V_dipolo_cartesiano(x0-h,y0,p))/(2*h)
dVdy = (V_dipolo_cartesiano(x0,y0+h,p) - V_dipolo_cartesiano(x0,y0-h,p))/(2*h)
print(f"E_x numérico = {-dVdx:.4e}, E_y numérico = {-dVdy:.4e}")
# === Seção “Dipolo em campo não-uniforme: força líquida”: Dipolo em campo não-uniforme ===
def força_dipolo_nao_uniforme(p, q, z):
"""Força sobre um dipolo p em campo de carga q no eixo z."""
F = -2*p*q/(4*np.pi*eps0*z**3)
return F
p, q, z = 1e-12, 1e-9, 0.01
F = força_dipolo_nao_uniforme(p, q, z)
print(f"\nForça sobre dipolo em campo não-uniforme: {F:.6e} N")
# === Seção “Energia de interação entre dois dipolos”: Energia entre dois dipolos ===
def energia_dois_dipolos(p1, p2, r, theta1, theta2, phi_diff):
"""
Energia entre dois dipolos.
theta1, theta2: ângulos com a linha que os separa
phi_diff: diferença de ângulo azimutal
"""
cos_theta1 = np.cos(theta1)
cos_theta2 = np.cos(theta2)
cos_phi = np.cos(phi_diff)
# Forma simplificada para dipolos no plano xz
p1_vec = p1 * np.array([np.sin(theta1), 0, np.cos(theta1)])
p2_vec = p2 * np.array([np.sin(theta2)*np.cos(phi_diff),
np.sin(theta2)*np.sin(phi_diff),
np.cos(theta2)])
r_hat = np.array([0, 0, 1])
U = k * (np.dot(p1_vec, p2_vec) - 3*np.dot(p1_vec, r_hat)*np.dot(p2_vec, r_hat)) / r**3
return U
# Paralelos e alinhados com a separação (atrativos)
U_atr = energia_dois_dipolos(1e-12, 1e-12, 0.01, 0, 0, 0)
# Paralelos e perpendiculares à separação (repulsivos)
U_rep = energia_dois_dipolos(1e-12, 1e-12, 0.01, np.pi/2, np.pi/2, 0)
print(f"Energia (paralelos, alinhados): {U_atr:.6e} J")
print(f"Energia (paralelos, perpendiculares): {U_rep:.6e} J")
print(f"Sinal oposto = atração vs repulsão ✓")
# === Visualização: linhas de campo e equipotenciais do dipolo ===
theta_plot = np.linspace(0, 2*np.pi, 100)
r_plot = np.linspace(0.1, 3, 50)
Theta, R = np.meshgrid(theta_plot, r_plot)
X = R * np.sin(Theta)
Y = R * np.cos(Theta)
V_plot = np.zeros_like(X)
for i in range(len(X)):
for j in range(len(X[i])):
r = np.sqrt(X[i,j]**2+Y[i,j]**2)
if r > 0.01:
theta = np.arctan2(X[i,j], Y[i,j])
V_plot[i,j] = k*p*np.cos(theta)/r**2
fig, (ax1, ax2) = plt.subplots(1, 2, figsize=(12,5))
contour = ax1.contour(X, Y, V_plot, levels=20, cmap='RdBu_r')
ax1.set_aspect('equal')
ax1.set_title('Equipotenciais do dipolo')
plt.colorbar(contour, ax=ax1)
# Campo E no plano
x_field = y_field = np.linspace(-3, 3, 180)
X_field, Y_field = np.meshgrid(x_field, y_field)
R_field = np.hypot(X_field, Y_field)
Theta_field = np.arctan2(X_field, Y_field)
er, etheta = campo_dipolo(R_field, Theta_field, p)
Ex = er*np.sin(Theta_field) + etheta*np.cos(Theta_field)
Ey = er*np.cos(Theta_field) - etheta*np.sin(Theta_field)
ax2.streamplot(x_field, y_field, Ex, Ey, color='b', density=1.5)
ax2.set_aspect('equal')
ax2.set_title('Campo elétrico do dipolo')
ax2.set_xlabel('x')
ax2.set_ylabel('y')
plt.tight_layout()
Potencial exato (2 cargas no eixo z): 8.987967e-02 V Potencial dipolo (no eixo): 8.987742e-02 V Erro relativo da aproximação: 2.500e-05 Energia do sistema de 3 cargas: -8.987742e-07 J V aproximado (dipolo ideal): 1.945903e-03 V V exato (duas cargas): 1.945903e-03 V Erro relativo: 0.0000% E_x numérico = 1.4433e-02, E_y numérico = 1.2388e-02 Força sobre dipolo em campo não-uniforme: -1.797548e-05 N Energia (paralelos, alinhados): -1.797548e-08 J Energia (paralelos, perpendiculares): 8.987742e-09 J Sinal oposto = atração vs repulsão ✓
- Expansão multipolar: o termo monopolo domina a grande distância se $Q\neq0$; o dipolo domina se $Q=0$; o quadrupolo se $Q=p=0$, etc.
- Energia de cargas: o fator $\tfrac{1}{2}$ evita dupla contagem de pares.
- Dipolo: aproximação de campo distante converge conforme $r\gg d$.
- Dipolo não-uniforme: força $\propto 1/z^3$, atrativa.
- Energia entre dipolos: a configuração alinhada é atrativa e a paralela perpendicular à separação é repulsiva, consistente com a física qualitativa.
- Visualização: linhas de campo emanam do polo positivo e terminam no negativo; equipotenciais são perpendiculares às linhas de campo.
3.12 Resumo do Capítulo
3.12.1 Fórmulas-Chave
| Conceito | Fórmula | Aplicações |
|---|---|---|
| Trabalho e energia potencial | $W_{A\to B} = -\Delta U = U_A - U_B$ | Movimento de cargas em campos |
| Potencial elétrico | $V(\vec{r}) = -\int_{\text{ref}}^{\vec{r}}\vec{E}\cdot d\vec{\ell}$ | Escalar mais fácil de calcular que $\vec E$ |
| Campo-potencial | $\vec{E} = -\nabla V$ | Recupera campo a partir do potencial |
| Equação de Poisson | $\nabla^2 V = -\rho/\varepsilon_0$ | Potencial com distribuição de carga |
| Equação de Laplace | $\nabla^2 V = 0$ | Potencial sem carga livre |
| Energia no campo | $U = \dfrac{\varepsilon_0}{2}\int E^2\,dV$ | Densidade de energia $u_E = \tfrac{1}{2}\varepsilon_0 E^2$ |
| Potencial de dipolo | $V_{\text{dip}} = \dfrac{1}{4\pi\varepsilon_0}\dfrac{\vec{p}\cdot\hat{r}}{r^2}$ | Campo distante de dipolo |
| Campo de dipolo | $\vec{E}_{\text{dip}} = \dfrac{p}{4\pi\varepsilon_0 r^3}(2\cos\theta\,\hat{r}+\sin\theta\,\hat\theta)$ | Dependência $1/r^3$ |
| Torque no dipolo | $\vec{\tau} = \vec{p}\times\vec{E}_{\text{ext}}$ | Alinhamento com campo externo |
| Energia de dipolo | $U = -\vec{p}\cdot\vec{E}_{\text{ext}}$ | Mínima quando paralelo a $\vec E$ |
| Força em campo não-uniforme | $\vec{F} = (\vec{p}\cdot\nabla)\vec{E}_{\text{ext}}$ | Dieletroforese (DEP) |
3.12.2 Expansão Multipolar
| Termo | Dependência | Quando domina |
|---|---|---|
| Monopolo | $1/r$ | $Q_{\text{total}} \neq 0$ |
| Dipolo | $1/r^2$ | $Q_{\text{total}} = 0$, $\vec{p} \neq 0$ |
| Quadrupolo | $1/r^3$ | $Q_{\text{total}} = 0$, $\vec{p} = 0$, $Q_{ij} \neq 0$ |
3.12.3 Conceitos-Chave
- Potencial escalar: Mais fácil de calcular que campo vetorial; $\vec E = -\nabla V$.
- Equação de Poisson/Laplace: EDPs fundamentais para problemas de valor de contorno.
- Energia no campo: $u_E = \tfrac{1}{2}\varepsilon_0 E^2$ — energia armazenada no espaço, não apenas nas cargas.
- Dipolo: Sistema de duas cargas opostas; momento $\vec p = q\vec d$.
- Interação dipolo-dipolo: Anisotrópica ($1/r^3$ para potencial, $1/r^4$ para força).
3.13 Lista de Exercícios Propostos
E1 (Trabalho e energia potencial). Uma carga puntiforme $q_1 = 2\,\mu\text{C}$ está fixa na origem. Uma carga de teste $q_2=-3\,\mu\text{C}$ é trazida de $r_A=50\,\text{cm}$ até $r_B=20\,\text{cm}$, ao longo de um caminho arbitrário. Calcule o trabalho realizado pela força elétrica e diga se ele é positivo ou negativo, justificando fisicamente.
E2 (Potencial e gradiente). O potencial elétrico em uma região é dado por $V(x,y,z) = A(2x^2-y^2-z^2)$, com $A$ constante. (a) Determine $\vec{E}(x,y,z)$. (b) Verifique se essa região pode ser eletrostática no vácuo sem cargas livres (equação de Laplace). (c) Calcule $\vec E$ no ponto $(1,1,1)$ m para $A=10\ \text{V/m}^2$.
E3 (Equação de Poisson). Uma esfera de raio $R$ possui densidade volumétrica de carga não uniforme $\rho(r) = \rho_0\, r/R$ para $r\le R$ (e $\rho=0$ fora). Usando a Lei de Gauss (forma integral, com simetria esférica), determine $E(r)$ para $r<R$ e para $r>R$. Em seguida, verifique que o resultado interno é consistente com a equação de Poisson em coordenadas esféricas, $\dfrac{1}{r^2}\dfrac{d}{dr}\left(r^2\dfrac{dV}{dr}\right) = -\dfrac{\rho}{\varepsilon_0}$.
E4 (Equação de Laplace). Mostre que $V(x,y) = V_0\left(\dfrac{x^2-y^2}{L^2}\right)$ satisfaz a equação de Laplace em uma região livre de cargas (independente de $z$). Esboce qualitativamente duas equipotenciais ($V>0$ e $V<0$) e determine o campo elétrico associado.
E5 (Expansão multipolar — dipolo). Duas cargas $+3\,\text{nC}$ e $-3\,\text{nC}$ estão separadas por $d=4\,\text{mm}$. Calcule, usando a aproximação de dipolo: (a) o momento de dipolo $p$; (b) o potencial no ponto a $r=30\,\text{cm}$ do centro, na direção $\theta=60°$ em relação ao eixo do dipolo; (c) o módulo do campo elétrico nesse mesmo ponto.
E6 (Expansão multipolar — quadrupolo linear). Três cargas estão alinhadas no eixo $z$: $+q$ em $z=+d$, $-2q$ em $z=0$, e $+q$ em $z=-d$ (um "quadrupolo linear", com momento de dipolo total nulo por simetria). (a) Mostre que o momento de dipolo total é zero. (b) Calcule o tensor de quadrupolo $Q_{zz} = \sum_i (3z_i^2-r_i^2)q_i$. (c) Escreva o potencial aproximado no eixo $z$, para $z\gg d$, e compare numericamente com o valor exato para $q=2\,\text{nC}$, $d=2\,\text{cm}$, $z=2\,\text{m}$.
E7 (Energia armazenada no campo). Um capacitor de placas paralelas tem campo uniforme $E=2\times10^4\,\text{V/m}$ confinado a um volume de $A=50\,\text{cm}^2$ por $s=1\,\text{mm}$ de espessura entre as placas. Calcule a densidade de energia $u_E$ e a energia total armazenada $U$ nesse volume.
E8 (Energia de um sistema de cargas). Três cargas idênticas $q=1\,\text{nC}$ são colocadas nos vértices de um triângulo equilátero de lado $a=3\,\text{cm}$. (a) Calcule a energia potencial total do sistema por dois métodos: soma direta sobre pares, e a fórmula $U=\frac12\sum_i q_i V_i$. (b) Quanto trabalho externo é necessário para trazer as três cargas do infinito até essa configuração?
E9 (Desafio — energia de uma casca esférica). Uma casca esférica fina de raio $R$ tem carga total $Q$ distribuída uniformemente em sua superfície. Usando a Lei de Gauss (campo nulo dentro, $E=kQ/r^2$ fora) e a fórmula da densidade de energia do campo $u_E=\frac12\varepsilon_0 E^2$ (Seção “Expansão multipolar”), calcule a energia eletrostática total armazenada, integrando $u_E$ sobre todo o espaço externo à casca. Expresse o resultado em termos de $Q$, $R$ e $\varepsilon_0$, e compare (em forma) com a energia potencial de duas cargas puntiformes separadas por $R$.
E10 (Torque e energia do dipolo). Um dipolo com $p=5\times10^{-29}\,\text{C}\cdot\text{m}$ está inicialmente alinhado perpendicularmente a um campo externo uniforme $E_{ext}=10^6\,\text{V/m}$. (a) Calcule o torque inicial sobre o dipolo. (b) Calcule o trabalho realizado por um agente externo para girar o dipolo lentamente (quase-estaticamente) da posição perpendicular até a posição de equilíbrio estável. (c) Repita para a posição de equilíbrio instável (antiparalelo).
E11 (Dipolo em campo não uniforme — fio infinito). Um fio retilíneo infinito, com densidade linear de carga $\lambda>0$, cria um campo $E(s) = \dfrac{\lambda}{2\pi\varepsilon_0 s}$ (radial, perpendicular ao fio, a uma distância $s$). Um pequeno dipolo de momento $p$, orientado radialmente (apontando para fora do fio), está a uma distância $s_0$ do fio. (a) Determine a força líquida sobre o dipolo (módulo, direção e sentido). (b) O dipolo é atraído ou repelido pelo fio? Justifique fisicamente comparando com o Exemplo da Seção “Dipolo em campo não-uniforme: força líquida”.
E12 (Interação entre dois dipolos). Dois dipolos idênticos, $p_1=p_2=p$, estão separados por uma distância $r$. (a) Escreva a energia de interação para as três configurações notáveis discutidas na Seção “Energia de interação entre dois dipolos” (paralelos alinhados com $\hat r$; paralelos perpendiculares a $\hat r$; perpendiculares entre si e a $\hat r$). (b) Partindo diretamente da definição de energia de duas cargas puntiformes (sem usar a fórmula de dipolo), calcule a energia exata do sistema de 4 cargas para o caso "alinhados com $\hat r$", com $p=qd$, $d\ll r$, expandindo em série até ordem $1/r^3$, e verifique com qual fórmula da Seção “Energia de interação entre dois dipolos” o resultado coincide.
E13 (Desafio — dipolos da água, ordem de grandeza). A molécula de água tem momento de dipolo permanente $p\approx 6{,}2\times10^{-30}\,\text{C}\cdot\text{m}$. (a) Estime a energia de interação (em elétron-volts) entre duas moléculas de água separadas por $r=0{,}3\,\text{nm}$ (dimensão molecular típica), na configuração mais atrativa possível (dentre as da Seção “Energia de interação entre dois dipolos”, reexaminadas no item (b) do E12). (b) Compare essa energia com a energia térmica $k_BT$ à temperatura ambiente ($T=300\,\text{K}$, $k_B=1{,}38\times10^{-23}\,\text{J/K}$) e comente se a interação dipolo-dipolo sozinha explicaria a coesão da água líquida a essa distância.
E14 (Campo e potencial exatos vs. aproximação de dipolo). Duas cargas $+q$ e $-q$ ($q=1\,\text{nC}$) estão em $z=+0{,}5\,\text{mm}$ e $z=-0{,}5\,\text{mm}$. Calcule o potencial exato (soma das duas cargas puntiformes) e o potencial aproximado de dipolo no ponto $(x,y,z)=(0,\,0{,}02,\,0)$ m (i.e., no plano equatorial, $\theta=90°$, $r=2\,\text{cm}$). Compare os dois resultados.
3.14 Gabarito
E1.
Com $q_1q_2 = (2\times10^{-6})(-3\times10^{-6}) = -6\times10^{-12}\,\text{C}^2$, $k=8{,}9875\times10^9\,\text{N}\cdot\text{m}^2/\text{C}^2$:
Fisicamente: as cargas têm sinais opostos, logo se atraem; ao ser trazida de $r_A$ para $r_B<r_A$ (mais perto), a força elétrica (atrativa) realiza trabalho positivo sobre $q_2$ — o sistema perde energia potencial ($U_B<U_A$), consistente com $W=U_A-U_B>0$.
E2.
(a) Gradiente de $V=A(2x^2-y^2-z^2)$:
(b) Laplaciano:
Como $\nabla^2V=0$, a equação de Laplace é satisfeita — sim, é consistente com uma região sem carga livre ($\rho=0$).
(c) Em $(1,1,1)$ m, $A=10\ \text{V/m}^2$:
E3.
Pela Lei de Gauss com simetria esférica, $E(r)\cdot 4\pi r^2 = Q_{enc}(r)/\varepsilon_0$.
Para $r\le R$:
Para $r>R$, a carga total encerrada é $Q_{tot}=\pi\rho_0 R^3$ (fazendo $r=R$ acima), logo:
Verificação via Poisson (região interna, simetria esférica, $\vec E = E(r)\hat r = -dV/dr\,\hat r$):
Isso é exatamente $-\rho(r)/\varepsilon_0 = -(\rho_0 r/R)/\varepsilon_0$, confirmando a equação de Poisson. $\checkmark$
E4.
As equipotenciais $V=\text{const.}\neq0$ são hipérboles $x^2-y^2=\text{const.}$ no plano $xy$ (para $V>0$, abrindo ao longo de $x$; para $V<0$, abrindo ao longo de $y$); $V=0$ corresponde às retas $y=\pm x$. Esse é o padrão típico de um "canto" ou "quina" equipotencial de $90°$, usado como modelo local de campo perto de eletrodos angulares.
Campo elétrico:
E5.
(a) Momento de dipolo:
(b) Potencial (Seção “Dedução do potencial em campo distante”, $\theta=60°\Rightarrow\cos\theta=0{,}5$, $r=0{,}3$ m):
(c) Módulo do campo (Seção “Campo elétrico do dipolo”, $E=\dfrac{p}{4\pi\varepsilon_0 r^3}\sqrt{1+3\cos^2\theta}$):
E6.
(a) Momento de dipolo total: $p = \sum_i q_i z_i = (q)(d) + (-2q)(0) + (q)(-d) = 0$. $\checkmark$ (o sistema tem simetria que garante $p=0$: a carga positiva "extra" de um lado é compensada pela do outro lado, restando apenas o efeito de segunda ordem no quadrupolo.)
(b) Tensor de quadrupolo (elemento $zz$), com $x_i=y_i=0$ logo $r_i'^2=z_i^2$ para cada carga pontual, $3z_i^2-r_i'^2 = 2z_i^2$:
(c) Potencial no eixo ($x=y=0$, usando a fórmula da Seção “Equação de Poisson e de Laplace”.3 particularizada ao eixo, $V_{quad}=\dfrac{1}{4\pi\varepsilon_0}\dfrac{Q_{zz}}{2z^3}$):
Numericamente, $q=2\times10^{-9}$ C, $d=0{,}02$ m, $z=2$ m:
Valor exato (soma das três cargas puntiformes, $z\gg d$):
confirmando que o termo quadrupolo domina (já que monopolo e dipolo totais são nulos).
E7.
Volume: $\mathcal V = A\cdot s = (50\times10^{-4}\ \text{m}^2)(1\times10^{-3}\ \text{m}) = 5\times10^{-6}\ \text{m}^3$
E8.
(a) Soma direta sobre pares: há 3 pares, todos à mesma distância $a$, todas as cargas iguais a $q$:
Numericamente: $kq^2/a = (8{,}9875\times10^9)(10^{-9})^2/(0{,}03) \approx 2{,}996\times10^{-7}$ J, logo
Verificação via $U=\frac12\sum_i q_iV_i$: cada carga sente o potencial das outras duas, ambas à distância $a$: $V_i = 2kq/a$ para cada $i$. Logo:
Mesmo resultado. $\checkmark$ (o fator $\frac12$ compensa exatamente a dupla contagem: cada par $i,j$ contribui a $V_i$ e a $V_j$.)
(b) O trabalho externo necessário para montar a configuração a partir do infinito é, por definição, igual à energia potencial final (partindo de $U=0$ no infinito):
E9.
Fora da casca ($r>R$), por Gauss, $E(r) = \dfrac{Q}{4\pi\varepsilon_0 r^2}$; dentro ($r<R$), $E=0$ (Lei de Gauss com carga interna nula). A energia total é a integral de $u_E$ sobre todo o espaço; como $E=0$ dentro, só a região externa contribui:
Esse resultado tem a mesma forma que a energia potencial de duas cargas puntiformes $U=kq_1q_2/r$, mas com um fator extra $\frac12$ e $Q^2$ no lugar de $q_1q_2$ — reflexo de que, ao trazer a carga da casca "de si mesma" desde o infinito, cada elemento de carga interage com todos os outros já depositados, e não há duas cargas distintas separadas por $R$ como no caso de duas cargas puntiformes.
E10.
(a) Torque inicial ($\theta=90°$, perpendicular, $\sin\theta=1$):
(b) $U(\theta) = -pE_{ext}\cos\theta$. De $\theta=90°$ ($U_i=0$) até $\theta=0°$ (equilíbrio estável, $U_f=-pE_{ext}$):
O trabalho do agente externo (quase-estático, sem energia cinética) é $W_{ext} = U_f - U_i$:
(negativo: o campo realiza trabalho positivo sobre o dipolo enquanto ele gira espontaneamente para o alinhamento; para que o processo seja quase-estático, o agente externo precisa "segurar" o dipolo, realizando trabalho negativo sobre ele.)
(c) De $\theta=90°$ ($U_i=0$) até $\theta=180°$ (antiparalelo, equilíbrio instável, $U_f=+pE_{ext}$):
(positivo: o agente externo deve fornecer energia para forçar o dipolo contra a tendência natural de alinhamento.)
E11.
(a) A força sobre um dipolo é $\vec F = (\vec p\cdot\nabla)\vec E_{ext}$ (Seção “Dipolo em campo não-uniforme: força líquida”). Com $\vec p = p\,\hat s$ (radial, para fora do fio) e $\vec E_{ext}(s) = \dfrac{\lambda}{2\pi\varepsilon_0 s}\,\hat s$, e como o campo só depende de $s$:
(b) O sinal negativo (para $\lambda, p>0$) indica força na direção $-\hat s$, ou seja, em direção ao fio — o dipolo é atraído. Fisicamente: a carga $-q$ do dipolo (mais próxima do fio, já que $\vec p$ aponta para fora, da carga negativa à positiva) sente um campo mais intenso (o campo do fio cai como $1/s$) do que a carga $+q$ (mais distante); a atração eletrostática da carga próxima domina sobre a repulsão da carga distante, resultando em força atrativa líquida — o mesmo mecanismo qualitativo do Exemplo da Seção “Dipolo em campo não-uniforme: força líquida” (dipolo atraído por uma carga puntiforme), mas com campo caindo como $1/s$ em vez de $1/z^2$.
E12.
(a) Da Seção “Energia de interação entre dois dipolos”, com $U_0\equiv \dfrac{p_1p_2}{4\pi\varepsilon_0 r^3}=\dfrac{kp^2}{r^3}$:
- Paralelos, alinhados com $\hat r$: $U = -2U_0 = -\dfrac{2kp^2}{r^3}$
- Paralelos, perpendiculares a $\hat r$: $U=+U_0 = +\dfrac{kp^2}{r^3}$
- Perpendiculares entre si e a $\hat r$: $U=0$
(b) Configuração "alinhados com $\hat r$": dipolo 1 em $z=0$ com cargas $+q$ em $z=d/2$ e $-q$ em $z=-d/2$; dipolo 2 em $z=r$ com $+q$ em $z=r+d/2$ e $-q$ em $z=r-d/2$ (ambos momentos apontando em $+\hat z=\hat r$). A energia exata (soma dos 4 pares de cargas):
Expandindo $\dfrac{1}{r\mp d} \approx \dfrac{1}{r}\left(1\pm\dfrac{d}{r}+\dfrac{d^2}{r^2}\right)$ até ordem $d^2/r^2$:
Ou seja, o cálculo direto com as 4 cargas dá $U=-2kp^2/r^3$ para a configuração "alinhados com $\hat r$" — atrativa, consistente com a Seção “Energia de interação entre dois dipolos”.
Confirmação pela fórmula em caixa da Seção “Energia de interação entre dois dipolos”, $U = k[\vec p_1\cdot\vec p_2 - 3(\vec p_1\cdot\hat r)(\vec p_2\cdot\hat r)]/r^3$: com $\vec p_1=\vec p_2=p\hat r$, $\vec p_1\cdot\vec p_2=p^2$ e $(\vec p_1\cdot\hat r)(\vec p_2\cdot\hat r)=p^2$, logo $U=k[p^2-3p^2]/r^3=-2kp^2/r^3$ — idêntico ao cálculo exato de 4 cargas.
E13.
(a) Configuração mais atrativa (mínimo de energia): pela análise do E12(b), a configuração "alinhados com $\hat r$" tem $U=-2kp^2/r^3$ (atrativa), enquanto a "perpendicular a $\hat r$" tem $U=+kp^2/r^3$ (repulsiva); portanto a configuração mais atrativa dentre as três é a alinhada, $U=-2kp^2/r^3$.
Numerador: $2(8{,}9875\times10^9)(3{,}844\times10^{-59}) \approx 6{,}91\times10^{-49}$
Denominador: $(0{,}3\times10^{-9})^3 = 2{,}7\times10^{-29}$
Convertendo para eV ($1\,\text{eV}=1{,}602\times10^{-19}$ J):
(b) Energia térmica à temperatura ambiente:
Comparando: $|U|/k_BT \approx 0{,}160/0{,}0259 \approx 6{,}2$.
A energia de interação dipolo-dipolo é da mesma ordem de grandeza (poucas vezes maior) que a energia térmica — ela contribui de forma relevante para a coesão da água líquida, mas não é isoladamente dominante: sendo apenas alguns múltiplos de $k_BT$, a agitação térmica é capaz de romper e reformar continuamente essas ligações, consistente com o caráter dinâmico das pontes de hidrogênio na água líquida (que, na realidade, envolvem também contribuições quânticas e de repulsão de troca não capturadas neste modelo clássico simplificado de dipolo puntiforme).
E14.
Potencial exato: com $+q$ em $(0,0,0{,}0005)$ e $-q$ em $(0,0,-0{,}0005)$, ponto de observação $(0;\,0{,}02;\,0)$:
Como o ponto está no plano equatorial (mesma distância à carga positiva e à negativa, $\theta=90°$ em relação ao eixo do dipolo), $r_+=r_-$ exatamente, logo:
Potencial aproximado de dipolo ($\theta=90°\Rightarrow\cos\theta=0$):
Ambas as previsões coincidem exatamente (nulas) no plano equatorial: no plano perpendicular ao eixo do dipolo passando pelo seu centro, o potencial de um dipolo (exato ou aproximado) é sempre zero, pois os potenciais de $+q$ e $-q$ se cancelam exatamente (mesma distância às duas cargas, independentemente de $d$). Este resultado serve como verificação de consistência: o plano equatorial de um dipolo é sempre uma superfície equipotencial com $V=0$.