4. Corrente Elétrica, Materiais e Capacitância

Eletromagnetismo

4. Corrente Elétrica, Materiais e Capacitância

Eletromagnetismo — Apostila de Curso
Tópicos: Corrente Elétrica · Conservação da Carga (Equação da Continuidade) · Condutores, Dielétricos, Isolantes e Semicondutores · Lei de Ohm Pontual · Método das Imagens · Materiais Dielétricos · Polarização e Permissividade Elétrica · Capacitância


4.1 Objetivos de Aprendizagem

Ao final deste capítulo, você será capaz de:


4.2 Intuição Física: O que é Corrente Elétrica?

Antes de definir matematicamente a corrente elétrica, pense em termos físicos:

4.3 Aplicações no Mundo Real

Conceito Aplicação Prática
Corrente e densidade de corrente Projeto de fios, cabos e circuitos impressos
Equação da continuidade Análise de fluxo de carga em dispositivos semicondutores
Lei de Ohm pontual Projeto de resistores e materiais condutores
Método das imagens Cálculo de capacitância em linhas de transmissão e blindagem
Dielétricos e polarização Isoladores em linhas de alta tensão, capacitores em circuitos
Capacitância Armazenamento de energia, filtros em circuitos eletrônicos

4.4 Antes de começar

Ao final, você deve aplicar continuidade de carga, Lei de Ohm pontual, condições eletrostáticas em condutores e dielétricos, método das imagens e definições de capacitância. Diagnóstico: campo elétrico nulo no interior de um condutor significa ausência de carga em suas superfícies? Evidência mínima: verificar conservação de carga, calcular um campo por imagens e obter a energia de um capacitor.

4.5 Corrente Elétrica e Densidade de Corrente

4.5.1 Definição macroscópica

A corrente elétrica $I$ através de uma superfície é a taxa de transporte de carga:

$$ I \equiv \frac{dQ}{dt} $$

medida em ampères (1 A = 1 C/s). Por convenção, o sentido da corrente é o do movimento das cargas positivas (mesmo em condutores metálicos, onde os portadores reais são elétrons de carga negativa movendo-se em sentido oposto).

4.5.2 Densidade de corrente

Para descrever o transporte de carga localmente (não apenas o total através de uma seção), define-se a densidade de corrente $\vec{J}$ (A/m²): se $n$ é a densidade volumétrica de portadores de carga $q$ movendo-se com velocidade de deriva $\vec{v}_d$:

$$ \vec{J} = nq\vec{v}_d $$

A corrente total através de uma superfície $S$ é o fluxo de $\vec{J}$:

$$ I = \int_S \vec{J}\cdot d\vec{A} $$

Dedução microscópica: considere um condutor de seção $A$; em um intervalo $dt$, os portadores em um "cilindro" de comprimento $v_d\,dt$ atravessam a seção. A carga que passa é $dQ = nq(A\,v_d\,dt)$, logo $I = dQ/dt = nqv_dA = JA$ (para $\vec{J}$ uniforme e paralelo à normal da seção) — confirmando $\vec{J}=nq\vec{v}_d$.

4.6 Conservação da Carga — Equação da Continuidade

4.6.1 Dedução física

A conservação da carga é um princípio experimental fundamental: a carga em uma região só muda pelo fluxo através de sua fronteira (não há criação/destruição local). Para um volume $V$ fixo, delimitado por $S$:

$$ \frac{dQ_{env}}{dt} = -\oint_S \vec{J}\cdot d\vec{A} $$

O sinal negativo expressa que, se há corrente saindo líquida através de $S$ ($\oint\vec{J}\cdot d\vec{A}>0$), a carga interna deve diminuir. Escrevendo $Q_{env}=\int_V\rho\,dV$:

$$ \int_V \frac{\partial\rho}{\partial t}\,dV = -\oint_S\vec{J}\cdot d\vec{A} $$

Aplicando o Teorema do Divergente ao lado direito:

$$ \int_V \frac{\partial\rho}{\partial t}\,dV = -\int_V(\nabla\cdot\vec{J})\,dV $$

Como isso vale para volume arbitrário:

$$ \boxed{\nabla\cdot\vec{J} + \frac{\partial\rho}{\partial t} = 0}\qquad\text{(Equação da Continuidade)} $$

4.6.2 Regime estacionário

Em regime estacionário (corrente contínua, sem acúmulo de carga em nenhum ponto), $\partial\rho/\partial t=0$, e a equação se reduz a:

$$ \nabla\cdot\vec{J} = 0 $$

Fisicamente, em regime estacionário toda corrente que entra em um volume sai dele. Em regime variável, $\nabla\cdot\vec J$ pode ser não nulo sem violar conservação: a diferença acumula carga segundo a equação da continuidade. É a lei de Ampère magnetostática, não a continuidade, que se torna incompleta e recebe de Maxwell o termo de corrente de deslocamento.

4.7 Condutores, Isolantes, Dielétricos e Semicondutores

A resposta de um material a um campo elétrico externo depende de quão livremente seus elétrons podem se mover — comportamento descrito, em nível macroscópico, pela condutividade $\sigma$ (ou sua recíproca, a resistividade $\rho_{res}=1/\sigma$).

Categoria Condutividade típica (S/m) Mecanismo
Condutores (metais) $10^6$ – $10^8$ Elétrons de condução quase livres na banda de condução
Semicondutores $10^{-6}$ – $10^{4}$ Poucos portadores livres; $\sigma$ altamente sensível a $T$, dopagem, campo
Isolantes / Dielétricos $10^{-10}$ ou menor Elétrons fortemente ligados; sem portadores livres, apenas polarização

4.7.1 Condutores em equilíbrio eletrostático

Em um condutor em equilíbrio eletrostático (sem correntes), os elétrons livres se rearranjam até que:

  1. $\vec{E}=0$ no interior do condutor (caso contrário, haveria força sobre as cargas livres, gerando corrente — contradizendo o equilíbrio);
  2. Toda carga em excesso reside na superfície (consequência de $\nabla\cdot\vec{E}=\rho/\varepsilon_0=0$ no interior);
  3. O condutor é uma equipotencial ($\vec{E}=-\nabla V=0 \Rightarrow V=$ const.);
  4. Imediatamente fora da superfície, $\vec{E}$ é perpendicular a ela (caso contrário, a componente tangencial moveria cargas superficiais).

4.7.2 Isolantes e dielétricos

Em isolantes, os elétrons estão ligados aos átomos/moléculas; não há condução apreciável, mas a nuvem eletrônica se deforma sob campo externo, criando dipolos induzidos (ou alinhando dipolos permanentes) — fenômeno da polarização, detalhado na Seção “Materiais Dielétricos: Polarização e Permissividade”.

4.7.3 Semicondutores

Materiais como silício e germânio possuem um gap de energia pequeno entre as bandas de valência e condução, de modo que a agitação térmica (ou dopagem com impurezas doadoras/aceitadoras) libera um número controlável de portadores (elétrons e "buracos"). Isso permite condutividade ajustável por temperatura, luz, campo elétrico ou dopagem — base de diodos, transistores e toda a eletrônica de estado sólido.

Semicondutor intrínseco (puro, sem dopagem): a concentração de elétrons $n$ na banda de condução é igual à de buracos $p$ na banda de valência:

$$ n = p = n_i = \sqrt{N_c N_v}\,e^{-E_g/(2k_B T)} $$

onde $E_g$ é a energia do gap (Si: $\approx1{,}12\,\text{eV}$ a 300 K; Ge: $\approx0{,}67\,\text{eV}$), $N_c$ e $N_v$ são as densidades efetivas de estados nas bandas, e $k_B$ é a constante de Boltzmann. Note a dependência exponencial com $T$ — a condutividade de um semicondutor intrínseco cresce drasticamente com a temperatura (comportamento oposto ao dos metais).

Semicondutor extrínseco (dopado):

A condutividade em semicondutores é:

$$ \sigma = q(n\mu_n + p\mu_p) $$

onde $\mu_n$ e $\mu_p$ são as mobilidades de elétrons e buracos (típicas: $\mu_n\approx1400\,\text{cm}^2/\text{V·s}$, $\mu_p\approx450\,\text{cm}^2/\text{V·s}$ no Si a 300 K).

Efeito Hall em semicondutores: o sinal do coeficiente de Hall $R_H = 1/(nq)$ (ou $-1/(pq)$) revela se o material é tipo n ou tipo p — técnica padrão de caracterização de wafer. A mobilidade se obtém combinando Hall e resistividade: $\mu = |R_H|/\rho_{res}$.

4.8 Lei de Ohm na Forma Pontual

4.8.1 Modelo de Drude — detalhes e limitações

No modelo de Drude (1900), elétrons livres de massa $m$ e carga $-e$ sofrem colisões com a rede cristalina em um tempo médio de relaxação $\tau$. Entre colisões, sob campo $\vec{E}$, a equação de movimento (desprezando efeitos térmicos aleatórios, que se cancelam em média) é:

$$ m\frac{d\vec{v}_d}{dt} = -e\vec{E} - \frac{m}{\tau}\vec{v}_d $$

onde o segundo termo modela o "atrito" efetivo das colisões. Em regime estacionário ($d\vec{v}_d/dt=0$):

$$ \vec{v}_d = -\frac{e\tau}{m}\vec{E} $$

Tempo de relaxação e comprimento de livre caminho. Em metais a temperatura ambiente, $\tau \approx 10^{-14}\,\text{s}$ e o comprimento médio de livre caminho $\ell = v_F\tau$ (onde $v_F \approx 10^6\,\text{m/s}$ é a velocidade de Fermi) é da ordem de dezenas de ångströms — comparável à distância interatômica. Isso significa que elétrons colidem com a cada poucos espaçamentos da rede.

A condutividade é então:

$$ \sigma = \frac{ne^2\tau}{m} $$

Dependência com a temperatura:

Mobilidade eletrônica: define-se $\mu_e = |\vec{v}_d|/E = e\tau/m$. Para o cobre a 300 K: $\mu_e \approx 43\,\text{cm}^2/\text{V·s}$.

Limitações do modelo de Drude:

4.8.2 Derivação microscópica pelo modelo de Drude

Em um condutor ôhmico, elétrons livres de massa $m$ e carga $-e$ sofrem colisões com a rede cristalina em um tempo médio de relaxação $\tau$. Entre colisões, sob campo $\vec{E}$, a equação de movimento (desprezando efeitos térmicos aleatórios, que se cancelam em média) é:

$$ m\frac{d\vec{v}_d}{dt} = -e\vec{E} - \frac{m}{\tau}\vec{v}_d $$

onde o segundo termo modela o "atrito" efetivo das colisões. Em regime estacionário ($d\vec{v}_d/dt=0$):

$$ \vec{v}_d = -\frac{e\tau}{m}\vec{E} $$

A densidade de corrente, com $n$ elétrons por unidade de volume:

$$ \vec{J} = n(-e)\vec{v}_d = \frac{ne^2\tau}{m}\vec{E} $$

4.8.3 Forma constitutiva, hipóteses e domínio de validade

Definindo a condutividade $\sigma \equiv \dfrac{ne^2\tau}{m}$, obtém-se a Lei de Ohm na forma pontual:

$$ \boxed{\vec{J} = \sigma\vec{E}} $$

válida localmente em qualquer ponto de um material ôhmico (linear, isotrópico), em contraste com a forma macroscópica $V=RI$, que só se aplica a um condutor inteiro com geometria definida.

4.8.4 Dedução da forma macroscópica a partir da pontual

Para um condutor cilíndrico de comprimento $\ell$, seção $A$, com campo uniforme $E$ ao longo do eixo e corrente uniforme $J=I/A$:

$$ J = \sigma E \;\Rightarrow\; \frac{I}{A} = \sigma\frac{V}{\ell} \;\Rightarrow\; V = \left(\frac{\ell}{\sigma A}\right) I \equiv RI $$

com $R = \dfrac{\ell}{\sigma A} = \dfrac{\rho_{res}\ell}{A}$ — a resistência macroscópica, recuperando a Lei de Ohm usual de circuitos.

PYTHON
sigma_cobre = 5.96e7   # S/m
sigma_silicio_dopado = 1e3  # S/m (ordem de grandeza, depende da dopagem)

def campo_para_corrente(J, sigma):
    """Lei de Ohm pontual: E = J/sigma"""
    return J/sigma

def resistencia(l, A, sigma):
    return l/(sigma*A)

R_fio = resistencia(l=1.0, A=1e-6, sigma=sigma_cobre)  # fio de 1m, 1mm^2
print(f"Resistência do fio de cobre: {R_fio*1e3:.4f} mΩ")
Output:
Resistência do fio de cobre: 16.7785 mΩ

4.9 Método das Imagens

4.9.1 Ideia central

O método das imagens resolve a Equação de Laplace/Poisson (Seção “Conservação da Carga — Equação da Continuidade”.3) para problemas com condutores, explorando o Teorema da Unicidade: se conseguirmos encontrar qualquer configuração de cargas fictícias que reproduza as mesmas condições de contorno do problema original na região de interesse, essa configuração fornece a solução correta ali — mesmo que a distribuição fictícia (as "cargas imagem") não exista fisicamente na região onde o campo é calculado.

4.9.2 Dedução: carga puntiforme sobre plano condutor aterrado

Considere uma carga $+q$ a uma altura $d$ acima de um plano condutor infinito aterrado (o plano $z=0$, condutor ocupando $z<0$, aterrado logo $V=0$ em $z=0$). Queremos $V(x,y,z)$ para $z\ge 0$.

Proposta de solução por imagem: substitua o condutor por uma carga fictícia $-q$ em $z=-d$ (a "imagem espelhada"), e calcule o potencial de ambas as cargas, ignorando o condutor:

$$ V(x,y,z) = \frac{1}{4\pi\varepsilon_0}\left[\frac{q}{\sqrt{x^2+y^2+(z-d)^2}} - \frac{q}{\sqrt{x^2+y^2+(z+d)^2}}\right] $$

Verificação das condições de contorno:

  1. Em $z=0$: os dois termos têm denominadores iguais ($\sqrt{x^2+y^2+d^2}$), logo $V(x,y,0)=0$ ✓ — reproduz o plano aterrado.
  2. Para $z>0$, a única carga real na região é $+q$; a carga imagem está em $z=-d<0$, fora da região de interesse, então não viola a equação de Poisson na região física ($\nabla^2V=0$ exceto no ponto onde está $+q$) ✓.
  3. Por unicidade, essa é a única solução válida para $z\ge0$.

4.9.3 Carga induzida na superfície do condutor

O campo elétrico logo acima da superfície do condutor determina a densidade de carga induzida, $\sigma_{ind} = \varepsilon_0 E_z|_{z=0^+}$ (componente normal do campo na superfície de um condutor). Calculando $E_z=-\partial V/\partial z$ em $z=0$:

$$ E_z(x,y,0) = -\frac{qd}{2\pi\varepsilon_0(x^2+y^2+d^2)^{3/2}} $$
$$ \sigma_{ind}(x,y) = -\frac{qd}{2\pi(x^2+y^2+d^2)^{3/2}} $$

Integrando $\sigma_{ind}$ sobre todo o plano (usando coordenadas polares $r^2=x^2+y^2$), obtém-se carga total induzida $Q_{ind}=-q$ — todo o "fluxo" da carga real termina na carga induzida, como esperado fisicamente (a carga imagem tem exatamente a carga total que a distribuição induzida real produziria, vista de $z>0$).

4.9.4 Força sobre a carga real

A força sobre $+q$ é a mesma que a carga imagem exerceria (Lei de Coulomb entre $+q$ e $-q$ separadas por $2d$), sempre atrativa em direção ao plano:

$$ F = -\frac{1}{4\pi\varepsilon_0}\frac{q^2}{(2d)^2}\hat{z} $$

4.9.5 Método das imagens: carga externa a uma esfera condutora aterrada

Problema: carga $q$ a distância $d > a$ do centro de uma esfera condutora aterrada de raio $a$. A solução exige uma única carga imagem:

$$ q'=-q\frac{a}{d},\qquad b=\frac{a^2}{d}, $$

colocada dentro da esfera, na linha que liga o centro à carga real. Essa imagem garante $V=0$ em toda a superfície. A esfera aterrada pode trocar carga com a Terra, portanto sua carga induzida total não precisa ser nula. Uma segunda imagem $q''=-q'$ no centro seria necessária para uma esfera isolada e inicialmente neutra, que é um problema de contorno diferente.

A força sobre $q$ é:

$$ F = \frac{1}{4\pi\varepsilon_0}\frac{q\,q'}{(d-b)^2} $$
$$ \boxed{F=-\frac{1}{4\pi\varepsilon_0}\frac{q^2ad}{(d^2-a^2)^2}} $$

Sempre atrativa. No limite $d \gg a$:

$$ F \approx -\frac{1}{4\pi\varepsilon_0}\frac{q^2a}{d^3}. $$

O sinal negativo indica atração em direção à esfera. O limite $1/d^3$ é próprio da esfera aterrada; a esfera isolada e neutra possui o limite dipolar $1/d^5$.

PYTHON
import numpy as np
import matplotlib.pyplot as plt

x=np.linspace(-3,3,180); y=np.linspace(0.03,3,120); X,Y=np.meshgrid(x,y); a=1.2
def c(q,y0):
    dx,dy=X,Y-y0; r2=dx*dx+dy*dy+.015
    return q*dx/r2**1.5,q*dy/r2**1.5
E1,E2=c(1,a),c(-1,-a); Ex,Ey=E1[0]+E2[0],E1[1]+E2[1]
fig,ax=plt.subplots(figsize=(7,4.5)); ax.streamplot(X,Y,Ex,Ey,density=1.35,color="#2563eb")
ax.axhline(0,color="#475569",lw=6); ax.scatter(0,a,s=130,c="#dc2626",zorder=3)
ax.scatter(0,-a,s=130,c="#2563eb",alpha=.35,clip_on=False)
ax.text(.12,a,"+q real"); ax.text(.12,-a,"−q imagem",alpha=.65,clip_on=False)
ax.set(xlim=(-3,3),ylim=(-1.6,3),title="Carga diante de um plano condutor aterrado",xlabel="$x$",ylabel="$y$")
plt.tight_layout()
Figura

4.10 Materiais Dielétricos: Polarização e Permissividade

4.10.1 Polarização microscópica

Sob campo elétrico externo $\vec{E}$, átomos e moléculas de um dielétrico desenvolvem (ou têm reforçado, se já polares) um momento de dipolo. Define-se o vetor polarização $\vec{P}$ como o momento de dipolo por unidade de volume:

$$ \vec{P} \equiv \lim_{\Delta V\to 0}\frac{\sum_i \vec{p}_i}{\Delta V} $$

4.10.2 Cargas de polarização (ligadas)

Pode-se mostrar (por um argumento de "corte" do material em fatias, análogo ao usado para a corrente de continuidade) que uma polarização não-uniforme produz uma densidade volumétrica de carga ligada:

$$ \rho_b = -\nabla\cdot\vec{P} $$

e, na superfície de um dielétrico, uma densidade superficial de carga ligada:

$$ \sigma_b = \vec{P}\cdot\hat{n} $$

Ideia da dedução (esboço): em um dielétrico polarizado, dentro de qualquer volume interno, o "fim" de um dipolo cancela o "início" do dipolo vizinho, exceto onde $\vec{P}$ varia — sobra carga líquida proporcional a $-\nabla\cdot\vec{P}$; na superfície externa, os dipolos "cortados" pela fronteira deixam carga descoberta $\sigma_b=\vec{P}\cdot\hat n$.

4.10.3 O vetor deslocamento elétrico $\vec{D}$

A Lei de Gauss pontual, agora incluindo toda a carga (livre $\rho_f$ e ligada $\rho_b$):

$$ \nabla\cdot\vec{E} = \frac{\rho_f+\rho_b}{\varepsilon_0} = \frac{\rho_f - \nabla\cdot\vec{P}}{\varepsilon_0} $$

Reorganizando:

$$ \nabla\cdot(\varepsilon_0\vec{E}+\vec{P}) = \rho_f $$

Define-se o deslocamento elétrico:

$$ \boxed{\vec{D} \equiv \varepsilon_0\vec{E}+\vec{P}} $$

de modo que:

$$ \boxed{\nabla\cdot\vec{D} = \rho_f} $$

Essa é a grande utilidade de $\vec{D}$: sua fonte é apenas a carga livre (controlável externamente), o que simplifica problemas com dielétricos — não é preciso conhecer $\rho_b$ a priori.

4.10.4 Materiais lineares: susceptibilidade e permissividade relativa

Para dielétricos lineares, isotrópicos e homogêneos (LIH), a polarização responde linearmente ao campo local:

$$ \vec{P} = \varepsilon_0\chi_e\vec{E} $$

onde $\chi_e$ é a susceptibilidade elétrica (adimensional). Substituindo em $\vec{D}$:

$$ \vec{D} = \varepsilon_0\vec{E}+\varepsilon_0\chi_e\vec{E} = \varepsilon_0(1+\chi_e)\vec{E} \equiv \varepsilon\vec{E} $$
$$ \boxed{\varepsilon = \varepsilon_0\varepsilon_r,\qquad \varepsilon_r = 1+\chi_e} $$

$\varepsilon_r$ (permissividade relativa, ou constante dielétrica) varia de $1$ (vácuo) a dezenas ou centenas (ex.: $\varepsilon_r\approx80$ para água, à temperatura ambiente e baixas frequências) — quantifica o quanto o material "amortece" o campo elétrico interno em relação ao vácuo, para a mesma carga livre.

4.11 Capacitância

4.11.1 Definição

A capacitância de um sistema de dois condutores com cargas $+Q$ e $-Q$ mede quanta carga é necessária para gerar uma diferença de potencial unitária entre eles:

$$ C \equiv \frac{Q}{V} $$

Em materiais lineares, com geometria e estado constitutivo fixos, $C$ depende da geometria e da permissividade, não de $Q$ ou $V$ separadamente. Dielétricos não lineares, ferroelétricos, dependência com frequência, temperatura ou tensão podem tornar a capacitância incremental dependente do ponto de operação.

4.11.2 Dedução: capacitor de placas paralelas

Duas placas de área $A$, separadas por distância $d\ll\sqrt{A}$ (aproximação de placas infinitas), com cargas $+Q$ e $-Q$ ($\sigma=Q/A$), preenchidas por dielétrico $\varepsilon=\varepsilon_r\varepsilon_0$.

Usando o resultado da Seção “Corrente Elétrica e Densidade de Corrente”.6.4 (campo de um plano infinito, agora com $\varepsilon$ no lugar de $\varepsilon_0$ dentro do dielétrico) e somando os campos de ambas as placas (que se reforçam entre elas e se cancelam fora):

$$ E = \frac{\sigma}{\varepsilon} = \frac{Q}{\varepsilon A} $$

A diferença de potencial entre as placas:

$$ V = \int_0^d E\,dz = \frac{Qd}{\varepsilon A} $$

Logo:

$$ \boxed{C = \frac{Q}{V} = \frac{\varepsilon A}{d} = \frac{\varepsilon_r\varepsilon_0 A}{d}} $$

4.11.3 Dedução: capacitor cilíndrico (cabo coaxial)

Dois cilindros coaxiais de raios $a<b$ e comprimento $L$, carga $\pm Q$. Pela Lei de Gauss cilíndrica (Seção “Corrente Elétrica e Densidade de Corrente”.6.3), o campo entre os cilindros ($a<r<b$):

$$ E(r) = \frac{Q}{2\pi\varepsilon L r} $$

A diferença de potencial:

$$ V = \int_a^b E\,dr = \frac{Q}{2\pi\varepsilon L}\ln\left(\frac{b}{a}\right) $$
$$ \boxed{C = \frac{Q}{V} = \frac{2\pi\varepsilon L}{\ln(b/a)}} $$

Esse resultado é a base do cálculo de capacitância (e impedância) de cabos coaxiais, relevante para linhas de transmissão (Parte 2 — Ondas e Propagação).


4.11.4 Exemplo Resolvido Passo a Passo: Capacitância de um Cabo Coaxial

Problema: Um cabo coaxial tem raio interno $a = 1{,}0\,\text{mm}$, raio externo $b = 3{,}0\,\text{mm}$, e o espaço entre os cilindros é preenchido com um dielétrico de permissividade relativa $\varepsilon_r = 2{,}2$ (polietileno). O comprimento do cabo é $L = 100\,\text{m}$. Determine a capacitância $C$ do cabo.

Passo 1: Identificar a fórmula da capacitância para um capacitor cilíndrico.
Para dois cilindros coaxiais de raios $a$ e $b$ ($a<b$), comprimento $L$, e permissividade $\varepsilon = \varepsilon_r\varepsilon_0$, a capacitância é:

$$ C = \frac{2\pi\varepsilon L}{\ln(b/a)} = \frac{2\pi\varepsilon_r\varepsilon_0 L}{\ln(b/a)} $$

Passo 2: Calcular o logaritmo natural $\ln(b/a)$.

$$ \frac{b}{a} = \frac{3{,}0\,\text{mm}}{1{,}0\,\text{mm}} = 3 $$
$$ \ln(b/a) = \ln(3) \approx 1{,}0986 $$

Passo 3: Substituir os valores numéricos.
Usando $\varepsilon_0 = 8{,}854\times10^{-12}\,\text{F/m}$, $\varepsilon_r = 2{,}2$, $L = 100\,\text{m}$:

$$ C = \frac{2\pi(2{,}2)(8{,}854\times10^{-12}\,\text{F/m})(100\,\text{m})}{1{,}0986} $$

Calculando o numerador:

$$ 2\pi(2{,}2)(8{,}854\times10^{-12})(100) \approx 2\pi(2{,}2)(8{,}854\times10^{-10}) \approx 2\pi(1{,}948\times10^{-9}) \approx 1{,}223\times10^{-8}\,\text{F} $$

Dividindo pelo denominador:

$$ C \approx \frac{1{,}223\times10^{-8}\,\text{F}}{1{,}0986} \approx 1{,}113\times10^{-8}\,\text{F} = 11{,}13\,\text{nF} $$

Resposta final: $\boxed{C \approx 11{,}1\,\text{nF}}$

$$ \frac{C}{L} = \frac{2\pi\varepsilon_r\varepsilon_0}{\ln(b/a)} \approx \frac{1{,}223\times10^{-10}\,\text{F/m}}{1{,}0986} \approx 111{,}3\,\text{pF/m} $$

Isso é típico de cabos coaxiais de alta frequência (como os usados em TV a cabo ou redes de dados).


4.11.5 Capacitor esférico

Duas esferas concêntricas de raios $a$ e $b$ ($a<b$), com cargas $\pm Q$. Pela Lei de Gauss esférica, o campo entre as esferas ($a<r<b$):

$$ E(r) = \frac{Q}{4\pi\varepsilon r^2} $$

Diferença de potencial:

$$ V = \int_a^b E\,dr = \frac{Q}{4\pi\varepsilon}\left(\frac{1}{a}-\frac{1}{b}\right) $$
$$ \boxed{C = \frac{Q}{V} = 4\pi\varepsilon\,\frac{ab}{b-a}} $$

No limite $b\to\infty$ (esfera isolada de raio $a$): $C = 4\pi\varepsilon a$. Para a Terra ($R\approx6371\,\text{km}$): $C\approx711\,\mu\text{F}$.

4.11.6 Capacitores em série e paralelo

Paralelo: mesma diferença de potencial, cargas se somam:

$$ C_{eq} = C_1 + C_2 + \cdots $$

Série: mesma carga, potenciais se somam:

$$ \boxed{\frac{1}{C_{eq}} = \frac{1}{C_1} + \frac{1}{C_2} + \cdots} $$

4.11.7 Energia armazenada em um capacitor

Da Seção “Conservação da Carga — Equação da Continuidade”.4, $U=\frac12\int\varepsilon E^2\,dV$ (generalizando $\varepsilon_0\to\varepsilon$ em meio dielétrico linear). Para o capacitor de placas paralelas, com $E$ uniforme no volume $V_{vol}=Ad$:

$$ U = \frac{1}{2}\varepsilon E^2 (Ad) = \frac{1}{2}\varepsilon\left(\frac{Q}{\varepsilon A}\right)^2 Ad = \frac{Q^2 d}{2\varepsilon A} = \frac{Q^2}{2C} $$

Usando $Q=CV$, formas equivalentes:

$$ \boxed{U = \frac{Q^2}{2C} = \frac{1}{2}CV^2 = \frac{1}{2}QV} $$

Densidade de energia em presença de dielétrico:

$$ u_E = \frac{1}{2}\varepsilon E^2 = \frac{1}{2}\varepsilon_r\varepsilon_0 E^2 $$

Para o mesmo campo — ou a mesma tensão e geometria — o dielétrico aumenta $u_E$ por $\varepsilon_r$. Para um capacitor isolado, porém, $Q$ é fixo: inserir o dielétrico aumenta $C$, reduz $E$ e reduz $U=Q^2/(2C)$. Se ele permanece ligado a uma fonte ideal, $V$ é fixo, a fonte fornece carga adicional e $U=CV^2/2$ aumenta. Declarar o que fica fixo é essencial.

PYTHON
import numpy as np
import matplotlib.pyplot as plt

fig,ax=plt.subplots(figsize=(7,4)); x=np.linspace(-2.5,2.5,15)
ax.plot([-3,3],[1,1],lw=9,color="#dc2626"); ax.plot([-3,3],[-1,-1],lw=9,color="#2563eb")
for xi in x: ax.annotate("",(xi,-.82),(xi,.82),arrowprops=dict(arrowstyle="->",color="#374151",lw=1.5))
for xi in np.linspace(-2.7,2.7,12):
    ax.text(xi,1.18,"+",color="#dc2626",ha="center",weight="bold")
    ax.text(xi,-1.35,"−",color="#2563eb",ha="center",weight="bold")
ax.text(0,0,"$\\vec E$ uniforme",ha="center",bbox=dict(fc="white",ec="none",alpha=.8))
ax.set(xlim=(-3.4,3.4),ylim=(-1.7,1.7),aspect="equal",title="Campo entre placas paralelas"); ax.axis("off")
plt.tight_layout()
Figura

4.12 Exercícios Resolvidos em Python

4.12.1 Roteiro computacional

Objetivo. Calcular capacitâncias, energia, parâmetros de transporte e respostas RC, preservando unidades e geometria.

Como executar. Requer numpy, scipy e matplotlib. Converta todas as dimensões para metros antes dos cálculos e confronte a integração de $u_E$ com $CV^2/2$.

PYTHON
import numpy as np

eps0 = 8.854e-12
mu0 = 4*np.pi*1e-7
e = 1.602e-19
m_e = 9.109e-31

# --- Capacitores ---
def C_placas_paralelas(A, d, eps_r=1.0):
    return eps_r*eps0*A/d

def C_cilindrico(a, b, L, eps_r=1.0):
    return 2*np.pi*eps_r*eps0*L/np.log(b/a)

def C_esferico(a, b):
    return 4*np.pi*eps0*a*b/(b-a)

def C_esfera_isolada(r):
    return 4*np.pi*eps0*r

def energia_capacitor(Q=None, V=None, C=None):
    if C is None:
        C = Q/V
    if Q is not None:
        return Q**2/(2*C)
    return 0.5*C*V**2

# Capacitor de placas paralelas com dielétrico de vidro (eps_r ~ 4.5)
C1 = C_placas_paralelas(A=1e-4, d=1e-3, eps_r=4.5)
print(f"C (placas paralelas, vidro): {C1*1e12:.3f} pF")

# Cabo coaxial RG-58 (aprox.): a=0.45mm, b=1.5mm, dielétrico PE eps_r~2.3
C2 = C_cilindrico(a=0.45e-3, b=1.5e-3, L=1.0, eps_r=2.3)
print(f"C por metro (coaxial tipo RG-58): {C2*1e12:.2f} pF/m")

# Esfera isolada (Terra)
C_terra = C_esfera_isolada(6.371e6)
print(f"C da Terra: {C_terra:.2f} F")

# Energia armazenada
U = energia_capacitor(V=12.0, C=C1)
print(f"Energia armazenada em C1 a 12V: {U*1e9:.4f} nJ")

# Verificação numérica: integrar a densidade de energia u_E = 1/2 eps E^2
A, d, eps_r = 1e-4, 1e-3, 4.5
eps = eps_r*eps0
Q = 1e-9
E_field = Q/(eps*A)
U_campo = 0.5*eps*E_field**2*(A*d)
U_formula = Q**2/(2*C_placas_paralelas(A,d,eps_r))
print(f"U via integral do campo: {U_campo:.6e} J")
print(f"U via Q^2/2C:            {U_formula:.6e} J")

# --- Drude model ---
n_cobre = 8.5e28  # elétrons/m^3
sigma_cobre = 5.96e7
# tau = m*sigma/(n*e^2)
tau = m_e * sigma_cobre / (n_cobre * e**2)
v_F = 1.57e6  # velocidade de Fermi do cobre (m/s)
ell = v_F * tau  # livre caminho médio
print(f"\nDrude - Cobre:")
print(f"  tau = {tau*1e15:.2f} fs")
print(f"  livre caminho médio = {ell*1e10:.2f} Å")

# --- Semicondutor intrínseco ---
# n_i para Si a 300K ~ 1.5e16 m^-3
gap_Si = 1.12  # eV
kT = 8.617e-5 * 300  # eV
n_i_Si = 1.5e16
sigma_si = e * n_i_Si * (1400e-4 + 450e-4)  # S/m (mobilidade em m^2/Vs)
print(f"\nSi intrínseco (300K):")
print(f"  n_i = {n_i_Si:.2e} m^-3")
print(f"  sigma = {sigma_si:.4e} S/m")
print(f"  rho = {1/sigma_si:.2e} Ω·m")

# --- Efeito Hall em semicondutor ---
def coeficiente_hall(n, q):
    return 1/(n*q)

n_n = 1e21  # semicondutor tipo n
RH = coeficiente_hall(n_n, e)
print(f"\nCoeficiente Hall (tipo n): {RH:.2e} m^3/C")

# --- Capacitores em série ---
C1_val, C2_val = 2e-6, 4e-6
C_eq_series = 1/(1/C1_val + 1/C2_val)
C_eq_parallel = C1_val + C2_val
print(f"\nC_eq série (2uF + 4uF): {C_eq_series*1e6:.4f} uF")
print(f"C_eq paralelo (2uF + 4uF): {C_eq_parallel*1e6:.4f} uF")

# --- Verificação numérica: integrar campo do capacitor cilíndrico ---
def energia_cilindrica(Q, a, b, L, eps):
    """Integra u_E = 1/2 eps E^2 no volume entre cilindros."""
    r = np.linspace(a, b, 1000)
    E = Q/(2*np.pi*eps*L*r)
    u_E = 0.5*eps*E**2
    # dV = 2*pi*r*L*dr
    dV = 2*np.pi*r*L*np.gradient(r)
    return np.sum(u_E*dV)

Q, a, b, L = 1e-9, 0.45e-3, 1.5e-3, 1.0
eps = 2.3*eps0
U_int = energia_cilindrica(Q, a, b, L, eps)
U_formula = Q**2/(2*C_cilindrico(a, b, L, 2.3))
print(f"\nEnergia cilindrica: integral={U_int:.6e} J, formula={U_formula:.6e} J")
Output:
C (placas paralelas, vidro): 3.984 pF
C por metro (coaxial tipo RG-58): 106.27 pF/m
C da Terra: 0.00 F
Energia armazenada em C1 a 12V: 0.2869 nJ
U via integral do campo: 1.254926e-07 J
U via Q^2/2C:            1.254926e-07 J

Drude - Cobre:
  tau = 24.89 fs
  livre caminho médio = 390.73 Å

Si intrínseco (300K):
  n_i = 1.50e+16 m^-3
  sigma = 4.4455e-04 S/m
  rho = 2.25e+03 Ω·m

Coeficiente Hall (tipo n): 6.24e-03 m^3/C

C_eq série (2uF + 4uF): 1.3333 uF
C_eq paralelo (2uF + 4uF): 6.0000 uF

Energia cilindrica: integral=4.710716e-09 J, formula=4.704782e-09 J

4.13 Ruptura Dielétrica

Todo dielétrico possui um campo de ruptura (ou rigidez dielétrica) acima do qual o material perde suas propriedades isolantes — elétrons são arrancados dos átomos, gerando uma descarga condutora. Valores típicos:

Material Rigidez dielétrica (MV/m)
Ar (STP) ~3
Ar (seco) ~3,3
Papel impregnado ~16
Óleo mineral ~15
Vidro ~20–40
Mica ~118
Policarbonato ~500
Teflon ~60

Capacitor com campo máximo: para um capacitor de placas paralelas com dielétrico de rigidez $E_{\text{max}}$, a tensão máxima é $V_{\text{max}} = E_{\text{max}}\,d$ e a energia máxima armazenada é:

$$ U_{\text{max}} = \frac{1}{2}C\,V_{\text{max}}^2 = \frac{1}{2}\,\frac{\varepsilon A}{d}\,(E_{\text{max}}\,d)^2 = \frac{1}{2}\,\varepsilon E_{\text{max}}^2\,(Ad) $$

Note que $U_{\text{max}}$ é proporcional ao volume do dielétrico ($Ad$) e ao quadrado da rigidez. Para maximizar a energia armazenada, escolhe-se materiais de alta $\varepsilon_r$ e alta $E_{\text{max}}$ — o que motiva o uso de polipropileno, policarbonato e cerâmicas de alta permissividade em capacitores de potência.

Descarga no ar: o ar ioniza quando o campo excede ~3 MV/m, produzindo faíscas. Esta é a base das centelhas de motores de combustão e dos raios (onde a diferença de potencial entre nuvem e solo gera campos da ordem de $10^6$–$10^7$ V/m).

4.14 Circuitos RC — Carga e Descarga

4.14.1 Circuito RC em série com fonte DC

Um capacitor $C$ em série com resistor $R$, conectado a uma fonte de tensão $\mathcal{E}$. Pela lei de Kirchhoff das malhas:

$$ \mathcal{E} = IR + \frac{Q}{C} $$

com $I = dQ/dt$. Reescrevendo:

$$ \frac{dQ}{dt} + \frac{Q}{RC} = \frac{\mathcal{E}}{R} $$

A solução (com $Q(0)=0$):

$$ \boxed{Q(t) = C\mathcal{E}\left(1 - e^{-t/\tau}\right), \qquad I(t) = \frac{\mathcal{E}}{R}\,e^{-t/\tau}} $$

com constante de tempo $\tau = RC$. Após $t=\tau$, o capacitor carrega a ~63% da carga máxima; após $5\tau$, a ~99,3%.

4.14.2 Descarga do capacitor

Com a fonte removida (curto-circuitando $R$ e $C$ em série):

$$ \boxed{Q(t) = Q_0\,e^{-t/\tau}, \qquad I(t) = -\frac{Q_0}{RC}\,e^{-t/\tau}} $$

A energia armazenada é dissipada como calor no resistor:

$$ U_{\text{dissipada}} = \int_0^\infty I^2 R\,dt = \int_0^\infty \left(\frac{Q_0}{RC}\right)^2 e^{-2t/\tau} R\,dt = \frac{Q_0^2}{2C} $$

igual à energia inicial — conservação de energia.

4.14.3 Tempo de carga e potência máxima

A potência instantânea fornecida pela fonte é $P_{\text{fonte}}(t) = \mathcal{E}\,I(t)$, e a potência dissipada no resistor é $P_R(t) = I(t)^2 R$. Integrando:

$$ W_{\text{fonte}} = \int_0^\infty \mathcal{E}\,I(t)\,dt = \mathcal{E}\cdot\frac{\mathcal{E}}{R}\cdot\tau = C\mathcal{E}^2 $$

Mas a energia armazenada é $\tfrac12C\mathcal E^2$: neste modelo de fonte de tensão ideal, capacitor inicialmente descarregado e resistência série, exatamente metade é dissipada, independentemente do valor positivo de $R$.

Não é uma lei universal de qualquer carregamento. Conversores com indutores, recuperação de energia ou carga adiabática com tensão lentamente variável podem reduzir a dissipação; uma fonte de corrente ideal, sozinha, não garante menor perda sem especificar o circuito e sua tensão.


4.15 Resumo do Capítulo

4.15.1 Fórmulas-Chave

Conceito Fórmula Aplicações
Corrente elétrica $I = dQ/dt$ Fluxo de carga em circuitos
Densidade de corrente $\vec J = nq\vec v_d$ Transporte local de carga
Equação da continuidade $\nabla\cdot\vec J + \partial\rho/\partial t = 0$ Conservação de carga
Lei de Ohm pontual $\vec J = \sigma\vec E$ Condutores e resistores
Resistência $R = \rho L/A = L/(\sigma A)$ Fios e resistores
Método das imagens Carga imagem para condutor plano Cálculo de campo e capacitância
Polarização dielétrica $\vec P = \chi_e\varepsilon_0\vec E$ Materiais dielétricos
Deslocamento elétrico $\vec D = \varepsilon\vec E = \varepsilon_0\vec E + \vec P$ Campos em dielétricos
Capacitância $C = Q/V$ Armazenamento de carga
Energia no capacitor $U = \tfrac{1}{2}CV^2 = \tfrac{1}{2}QV$ Energia armazenada
Constante de tempo RC $\tau = RC$ Carga e descarga de capacitores

4.15.2 Classificação de Materiais

Material Condutividade $\sigma$ (S/m) Mecanismo dominante
Condutores (metais) $10^6$–$10^8$ Elétrons livres
Semicondutores $10^{-6}$–$10^4$ Elétrons e buracos
Isolantes/Dielétricos $10^{-10}$–$10^{-16}$ Polarização sem fluxo

4.15.3 Conceitos-Chave

  1. Corrente e densidade de corrente: $I = \int \vec J\cdot d\vec A$.
  2. Equação da continuidade: Expressa conservação local de carga.
  3. Lei de Ohm pontual: $\vec J = \sigma\vec E$ — válida para materiais ôhmicos.
  4. Método das imagens: Substitui condutor por carga fictícia para satisfazer condições de contorno.
  5. Dielétricos e polarização: Materiais que se polarizam em campo elétrico, aumentando a capacitância.
  6. Capacitância: Medida da capacidade de armazenar carga por unidade de tensão.

4.16 Lista de Exercícios Propostos

Os problemas a seguir cobrem todos os tópicos de Corrente, materiais e capacitância. Os três marcados como Desafio exigem combinar mais de uma técnica (imagens, integração de campo não uniforme, capacitores em camadas), mas usam apenas resultados já deduzidos neste capítulo e nos anteriores.

E1 — Um fio de cobre ($n=8{,}5\times10^{28}\,\text{m}^{-3}$) de raio $0{,}8\,\text{mm}$ conduz uma corrente de $15\,\text{A}$. Calcule (a) a área da seção transversal; (b) a densidade de corrente $J$; (c) a velocidade de deriva média dos elétrons.

E2 — A densidade de corrente é $\vec J=J_0e^{-t/\tau_0}\hat r/r^2$ para $r>0$. Use continuidade para obter $\partial\rho/\partial t$ numa casca $r_1<r<r_2$, determine a carga da casca e o fluxo de corrente por uma esfera. Explique onde está a fonte/sumidouro singular e por que o fator temporal do fluxo não implica que a carga da casca decaia.

E3 — Classifique cada material como condutor, semicondutor ou isolante a partir da condutividade informada, e explique o mecanismo microscópico dominante em cada caso: (a) $\sigma = 6{,}3\times10^{7}\,\text{S/m}$; (b) $\sigma = 2{,}5\times10^{-2}\,\text{S/m}$; (c) $\sigma = 10^{-13}\,\text{S/m}$.

E4 — O germânio possui $E_g = 0{,}67\,\text{eV}$ e concentração intrínseca $n_i = 2{,}4\times10^{13}\,\text{cm}^{-3}$ a $300\,\text{K}$, com mobilidades $\mu_n = 3900\,\text{cm}^2/\text{V·s}$ e $\mu_p = 1900\,\text{cm}^2/\text{V·s}$. Calcule a condutividade intrínseca $\sigma_i$ do Ge a $300\,\text{K}$ e compare (em ordem de grandeza) com o resultado do Si intrínseco obtido na Seção “Exercícios Resolvidos em Python” ($\sigma_{Si}\approx2{,}7\times10^{-4}\,\text{S/m}$).

E5 — Uma amostra de silício tipo n é dopada com $N_d = 10^{16}\,\text{cm}^{-3}$ de átomos doadores, todos ionizados ($n\approx N_d$). Usando $\mu_n = 1350\,\text{cm}^2/\text{V·s}$ (despreze a contribuição de buracos, $p\ll n$), calcule a condutividade $\sigma_n$ e a resistividade $\rho_{res}$ da amostra.

E6 — Uma amostra semicondutora é submetida a um ensaio de efeito Hall, obtendo-se $R_H = 4{,}5\times10^{-4}\,\text{m}^3/\text{C}$ (sinal indicando portadores majoritários negativos) e resistividade $\rho_{res}=0{,}05\,\Omega\cdot\text{m}$. Determine (a) a concentração de portadores $n$; (b) a mobilidade $\mu$; (c) o tipo de semicondutor (n ou p).

E7 — Para o alumínio ($n=1{,}81\times10^{29}\,\text{m}^{-3}$, $\sigma = 3{,}5\times10^{7}\,\text{S/m}$, velocidade de Fermi $v_F = 2{,}03\times10^{6}\,\text{m/s}$), use o modelo de Drude para calcular (a) o tempo de relaxação $\tau$; (b) o livre caminho médio $\ell$.

E8 — Um fio de alumínio (mesmo $\sigma$ do E7) tem comprimento $2\,\text{m}$ e diâmetro $1{,}5\,\text{mm}$. Calcule sua resistência $R$ usando a Lei de Ohm pontual integrada ao longo do fio.

E9 — Uma carga puntiforme $q=5\,\text{nC}$ está a $d=3\,\text{cm}$ de um plano condutor aterrado infinito. Calcule (a) a força sobre $q$ pelo método das imagens; (b) a densidade superficial de carga induzida no ponto do plano mais próximo da carga (diretamente "abaixo" dela).

E10 — Uma carga $q=8\,\text{nC}$ está a $d=20\,\text{cm}$ do centro de uma esfera condutora aterrada de raio $a=5\,\text{cm}$. Determine (a) a carga imagem $q'$ e sua posição $b$; (b) a força entre a carga e a esfera, sem aproximações.

E11 — Um dielétrico linear com $\varepsilon_r = 5$ preenche a região entre as placas de um capacitor, onde o campo elétrico vale $E = 2\times10^{5}\,\text{V/m}$. Calcule (a) a polarização $P$; (b) o deslocamento elétrico $D$; (c) a densidade superficial de carga ligada $\sigma_b$ na face do dielétrico voltada para a placa positiva.

E12 — Um capacitor de placas paralelas tem área $A = 25\,\text{cm}^2$, separação $d=0{,}5\,\text{mm}$, preenchido com dielétrico de $\varepsilon_r=6{,}0$ (mica). Calcule sua capacitância.

E13 — Um cabo coaxial tem raio interno $a=1\,\text{mm}$, raio externo $b=6\,\text{mm}$, comprimento $L=0{,}8\,\text{m}$, dielétrico de polietileno ($\varepsilon_r=2{,}1$). Calcule a capacitância do cabo.

E14 — Duas cascas esféricas condutoras concêntricas, de raios $a=2\,\text{cm}$ e $b=5\,\text{cm}$, estão separadas por vácuo. Calcule a capacitância do sistema.

E15 — Três capacitores, $C_1=3\,\mu\text{F}$, $C_2=6\,\mu\text{F}$ e $C_3=2\,\mu\text{F}$, são combinados: $C_1$ e $C_2$ em série, e essa combinação em paralelo com $C_3$. Calcule a capacitância equivalente total.

E16 — Um capacitor de placas paralelas com $A=10\,\text{cm}^2$, $d=2\,\text{mm}$, dielétrico de vidro ($\varepsilon_r=4$, rigidez dielétrica $E_{\text{max}}=25\,\text{MV/m}$), é carregado até o limiar de ruptura. Calcule (a) a capacitância; (b) a tensão máxima suportada; (c) a energia máxima armazenada.

E17 — Um circuito RC em série tem $R=2{,}2\,\text{k}\Omega$, $C=100\,\mu\text{F}$ e fonte $\mathcal{E}=9\,\text{V}$. No instante $t=0{,}3\,\text{s}$ após o fechamento da chave (capacitor inicialmente descarregado), calcule (a) a constante de tempo $\tau$; (b) a carga $Q(t)$; (c) a corrente $I(t)$.

E18 (Desafio) — Três dielétricos lineares são empilhados entre as placas de um capacitor de área $A=20\,\text{cm}^2$, formando três camadas em série (mesma área, espessuras e permissividades diferentes): camada 1 ($d_1=0{,}5\,\text{mm}$, $\varepsilon_{r1}=3{,}0$), camada 2 ($d_2=0{,}3\,\text{mm}$, $\varepsilon_{r2}=5{,}0$), camada 3 ($d_3=0{,}2\,\text{mm}$, $\varepsilon_{r3}=2{,}5$). Mostre que o sistema equivale a três capacitores de placas paralelas em série e calcule a capacitância equivalente.

E19 (Desafio) — Uma barra semicondutora de comprimento $L=2\,\text{mm}$ e seção transversal constante $A_{bar}=1\,\text{mm}^2$ possui dopagem tipo n não uniforme ao longo do comprimento: $N_d(x) = N_{d0}\left(1+\dfrac{x}{L}\right)$, com $N_{d0}=10^{16}\,\text{cm}^{-3}$, $x\in[0,L]$, mobilidade $\mu_n=1350\,\text{cm}^2/\text{V·s}$ constante (despreze buracos). Escreva $\sigma(x)$, monte a integral para a resistência total $R=\int_0^L \dfrac{dx}{\sigma(x)A_{bar}}$ e calcule seu valor numérico.

E20 (Desafio) — Uma carga puntiforme $q=6\,\text{nC}$ está posicionada no canto formado por dois planos condutores aterrados semi-infinitos, perpendiculares entre si (um no plano $x=0$, outro no plano $y=0$, ambos ocupando a região $x,y\ge0$ para $z$ qualquer). A carga está em $(x_0,y_0) = (4\,\text{cm},\,3\,\text{cm})$. Usando três cargas-imagem (generalização do método da Seção “Dedução: carga puntiforme sobre plano condutor aterrado” por superposição — duas imagens negativas e uma positiva), calcule o vetor força resultante sobre $q$.

4.17 Gabarito

E1 —

Área da seção: $A=\pi r^2 = \pi(0{,}8\times10^{-3})^2 = 2{,}011\times10^{-6}\,\text{m}^2$.

Densidade de corrente: $J = I/A = 15/(2{,}011\times10^{-6})$.

$$ \boxed{A = 2{,}011\times10^{-6}\,\text{m}^2,\qquad J = 7{,}460\times10^{6}\,\text{A/m}^2} $$

Velocidade de deriva, de $\vec{J}=nq\vec{v}_d$ (com $q=e$, um elétron por portador em módulo): $v_d = J/(ne)$.

$$ v_d = \frac{7{,}460\times10^{6}}{(8{,}5\times10^{28})(1{,}602\times10^{-19})} $$
$$ \boxed{v_d \approx 5{,}479\times10^{-4}\,\text{m/s} \approx 0{,}548\,\text{mm/s}} $$

Note como a velocidade de deriva é minúscula frente às velocidades térmicas/Fermi dos elétrons — o sinal elétrico se propaga rapidamente (campo), mas o transporte líquido de carga é extremamente lento.

E2 —

Da equação da continuidade (Seção “Dedução física”):

$$ \frac{\partial\rho}{\partial t} = -\nabla\cdot\vec{J} $$

Para $\vec{J} = \dfrac{J_0 e^{-t/\tau_0}}{r^2}\hat{r}$, o divergente em coordenadas esféricas de um campo puramente radial $\hat r/r^2$ é:

$$ \nabla\cdot\vec{J} = \frac{1}{r^2}\frac{\partial}{\partial r}\left(r^2 \cdot \frac{J_0e^{-t/\tau_0}}{r^2}\right) = \frac{1}{r^2}\frac{\partial}{\partial r}\left(J_0 e^{-t/\tau_0}\right) = 0 \quad (r\neq 0) $$

Ou seja, para $r>0$ o divergente de $\vec{J}$ é nulo (a forma $\hat r/r^2$ é a mesma do campo de uma fonte puntiforme, divergente livre fora da origem — análogo ao campo de Coulomb). Logo:

$$ \boxed{\frac{\partial\rho}{\partial t} = 0 \quad \text{para } r>0} $$

Isso significa que toda a dependência temporal de $\rho$ está concentrada na origem ($r=0$, uma fonte/sumidouro puntiforme de carga cuja intensidade decai como $e^{-t/\tau_0}$); em qualquer casca finita $r_1<r<r_2$ (que exclui a origem), não há acúmulo local de carga — a corrente que entra na casca é igual à que sai, em cada instante. Consequentemente, a carga contida em qualquer casca $[r_1,r_2]$ permanece constante no tempo (não decai com $\tau_0$; apenas o fluxo através de cada superfície esférica decai, pois $I(r,t) = \oint\vec J\cdot d\vec A = 4\pi J_0 e^{-t/\tau_0}$, sendo o mesmo para qualquer $r$ — consistente com $\nabla\cdot\vec J=0$ fora da origem).

$$ \boxed{Q_{[r_1,r_2]}(t) = \text{constante}, \qquad I(r,t) = 4\pi J_0\,e^{-t/\tau_0}\ \text{(mesmo valor em qualquer } r>0)} $$

E3 —

Comparando com a tabela da Seção “Condutores, Isolantes, Dielétricos e Semicondutores”:

(a) $\sigma = 6{,}3\times10^{7}\,\text{S/m}$ está na faixa $10^6$–$10^8\,\text{S/m}$ →

$$ \boxed{\text{Condutor (metal)} - \text{elétrons de condução quase livres na banda de condução}} $$

(valor próximo ao da prata, o melhor condutor metálico usual).

(b) $\sigma = 2{,}5\times10^{-2}\,\text{S/m}$ está na faixa $10^{-6}$–$10^{4}\,\text{S/m}$ →

$$ \boxed{\text{Semicondutor} - \text{poucos portadores livres, gerados termicamente ou por dopagem; } \sigma \text{ sensível a } T} $$

(c) $\sigma = 10^{-13}\,\text{S/m}$ está abaixo de $10^{-10}\,\text{S/m}$ →

$$ \boxed{\text{Isolante/dielétrico} - \text{elétrons fortemente ligados; sem portadores livres, só polarização}} $$

E4 —

Condutividade intrínseca: $\sigma_i = e\,n_i(\mu_n+\mu_p)$, com $n_i$ em m$^{-3}$ e mobilidades em m²/V·s.

Conversão: $n_i = 2{,}4\times10^{13}\,\text{cm}^{-3} = 2{,}4\times10^{19}\,\text{m}^{-3}$; $\mu_n=3900\,\text{cm}^2/\text{V·s}=3900\times10^{-4}\,\text{m}^2/\text{V·s}=0{,}39\,\text{m}^2/\text{V·s}$; $\mu_p=1900\times10^{-4}=0{,}19\,\text{m}^2/\text{V·s}$.

$$ \sigma_i = (1{,}602\times10^{-19})(2{,}4\times10^{19})(0{,}39+0{,}19) $$
$$ \boxed{\sigma_i \approx 2{,}230\,\text{S/m}} $$

Comparando com $\sigma_{Si}\approx2{,}7\times10^{-4}\,\text{S/m}$: o germânio intrínseco é cerca de quatro ordens de grandeza mais condutor que o silício intrínseco à mesma temperatura — consequência direta do gap de energia menor do Ge ($0{,}67\,\text{eV}$ vs. $1{,}12\,\text{eV}$ do Si), que aparece no expoente $e^{-E_g/2k_BT}$ e domina a concentração intrínseca de portadores.

E5 —

Com $n\approx N_d = 10^{16}\,\text{cm}^{-3} = 10^{22}\,\text{m}^{-3}$ e $\mu_n = 1350\,\text{cm}^2/\text{V·s}=0{,}135\,\text{m}^2/\text{V·s}$, e desprezando buracos ($p\ll n$):

$$ \sigma_n = e\,n\,\mu_n = (1{,}602\times10^{-19})(10^{22})(0{,}135) $$
$$ \boxed{\sigma_n \approx 216{,}3\,\text{S/m}} $$
$$ \boxed{\rho_{res} = \frac{1}{\sigma_n} \approx 4{,}624\times10^{-3}\,\Omega\cdot\text{m}} $$

Note como essa dopagem moderada eleva a condutividade em ~6 ordens de grandeza acima do Si intrínseco (E4 dá contexto de escala), ilustrando por que a dopagem controlada é a base de toda a eletrônica de semicondutores.

E6 —

(a) Da relação do coeficiente de Hall $R_H = 1/(nq)$ (Seção “Semicondutores”), isolando $n$:

$$ n = \frac{1}{R_H\,e} = \frac{1}{(4{,}5\times10^{-4})(1{,}602\times10^{-19})} $$
$$ \boxed{n \approx 1{,}387\times10^{22}\,\text{m}^{-3} = 1{,}387\times10^{16}\,\text{cm}^{-3}} $$

(b) Mobilidade a partir de $\mu = |R_H|/\rho_{res}$ (Seção “Semicondutores”):

$$ \mu = \frac{4{,}5\times10^{-4}}{0{,}05} = 9{,}0\times10^{-3}\,\text{m}^2/\text{V·s} $$
$$ \boxed{\mu = 90{,}0\,\text{cm}^2/\text{V·s}} $$

(c) O enunciado indica que o sinal de $R_H$ corresponde a portadores majoritários negativos (elétrons) — logo:

$$ \boxed{\text{Semicondutor tipo n}} $$

E7 —

(a) Da relação de Drude $\sigma = ne^2\tau/m \Rightarrow \tau = \dfrac{m\sigma}{ne^2}$:

$$ \tau = \frac{(9{,}109\times10^{-31})(3{,}5\times10^{7})}{(1{,}81\times10^{29})(1{,}602\times10^{-19})^2} $$
$$ \boxed{\tau \approx 6{,}863\times10^{-15}\,\text{s} = 6{,}863\,\text{fs}} $$

(b) Livre caminho médio $\ell = v_F\tau$:

$$ \ell = (2{,}03\times10^{6})(6{,}863\times10^{-15}) $$
$$ \boxed{\ell \approx 1{,}393\times10^{-8}\,\text{m} = 139{,}3\,\text{Å}} $$

Compatível com a ordem de grandeza citada na Seção “Modelo de Drude — detalhes e limitações” (dezenas de Å) para metais em temperatura ambiente.

E8 —

Área da seção do fio: $A = \pi(d/2)^2 = \pi(0{,}75\times10^{-3})^2 = 1{,}767\times10^{-6}\,\text{m}^2$.

Usando $R = \dfrac{\ell}{\sigma A}$ (Seção “Dedução da forma macroscópica a partir da pontual”), com $\ell=2\,\text{m}$ e $\sigma=3{,}5\times10^{7}\,\text{S/m}$ (E7):

$$ R = \frac{2{,}0}{(3{,}5\times10^{7})(1{,}767\times10^{-6})} $$
$$ \boxed{R \approx 0{,}0323\,\Omega = 32{,}3\,\text{m}\Omega} $$

E9 —

(a) Força pelo método das imagens (Seção “Força sobre a carga real”), com carga imagem $-q$ em $z=-d$, separação total $2d$:

$$ F = \frac{1}{4\pi\varepsilon_0}\frac{q^2}{(2d)^2} = \frac{(5\times10^{-9})^2}{4\pi(8{,}854\times10^{-12})(0{,}06)^2} $$
$$ \boxed{F \approx 6{,}242\times10^{-5}\,\text{N}\ \text{(atrativa, em direção ao plano)}} $$

(b) Densidade de carga induzida diretamente abaixo da carga ($x=y=0$, ponto de máxima magnitude), da Seção “Carga induzida na superfície do condutor”:

$$ \sigma_{ind}(0,0) = -\frac{qd}{2\pi d^3} = -\frac{q}{2\pi d^2} $$
$$ \sigma_{ind} = -\frac{5\times10^{-9}}{2\pi(0{,}03)^2} $$
$$ \boxed{\sigma_{ind} \approx -8{,}842\times10^{-7}\,\text{C/m}^2} $$

E10 —

(a) Da Seção “Método das imagens: carga externa a uma esfera condutora aterrada”: $q' = -q\,\dfrac{a}{d} = -(8\times10^{-9})\dfrac{0{,}05}{0{,}20}$:

$$ \boxed{q' = -2{,}0\times10^{-9}\,\text{C} = -2{,}0\,\text{nC}} $$

Posição da imagem: $b = a^2/d = (0{,}05)^2/0{,}20$:

$$ \boxed{b = 0{,}0125\,\text{m} = 1{,}25\,\text{cm} \text{ do centro}} $$

(b) Como a esfera é aterrada, existe apenas a imagem $q'$. A força sobre a carga real é igual à força de Coulomb exercida por essa imagem:

$$ F = \frac{1}{4\pi\varepsilon_0}\frac{q\,q'}{(d-b)^2} $$

Com $d-b = 0{,}20-0{,}0125 = 0{,}1875\,\text{m}$:

$$ F = \frac{1}{4\pi(8{,}854\times10^{-12})}\frac{(8\times10^{-9})(-2\times10^{-9})}{(0{,}1875)^2} $$
$$ \boxed{F \approx -4{,}09\times10^{-6}\,\text{N}\ \text{(sinal negativo: atrativa, em direção à esfera)}} $$

Verificação algébrica: substituindo $q'=-qa/d$ e $d-b=(d^2-a^2)/d$, obtém-se diretamente $F=-\dfrac{1}{4\pi\varepsilon_0}\dfrac{q^2ad}{(d^2-a^2)^2}$, a expressão da Seção “Método das imagens: carga externa a uma esfera condutora aterrada”.

E11 —

(a) Polarização em dielétrico linear (Seção “Materiais lineares: susceptibilidade e permissividade relativa”): $P = \varepsilon_0(\varepsilon_r-1)E$:

$$ P = (8{,}854\times10^{-12})(5-1)(2\times10^{5}) $$
$$ \boxed{P \approx 7{,}083\times10^{-6}\,\text{C/m}^2} $$

(b) Deslocamento elétrico $D=\varepsilon_0\varepsilon_r E$:

$$ D = (8{,}854\times10^{-12})(5)(2\times10^{5}) $$
$$ \boxed{D \approx 8{,}854\times10^{-6}\,\text{C/m}^2} $$

(Verificação: $D = \varepsilon_0 E + P = 8{,}854\times10^{-12}\times2\times10^5 + 7{,}083\times10^{-6} = 1{,}771\times10^{-6}+7{,}083\times10^{-6}=8{,}854\times10^{-6}\,\text{C/m}^2$ ✓.)

(c) Carga ligada superficial $\sigma_b = \vec P\cdot\hat n$ (Seção “Cargas de polarização (ligadas)”); na face voltada para a placa positiva, $\hat n$ aponta contra o campo aplicado pela placa (a face do dielétrico ali é negativa, atraída pela placa positiva), mas em módulo:

$$ \boxed{|\sigma_b| = P \approx 7{,}083\times10^{-6}\,\text{C/m}^2} $$

E12 —

Capacitor de placas paralelas (Seção “Dedução: capacitor de placas paralelas”): $C = \dfrac{\varepsilon_r\varepsilon_0 A}{d}$, com $A=25\times10^{-4}\,\text{m}^2$, $d=0{,}5\times10^{-3}\,\text{m}$:

$$ C = \frac{(6{,}0)(8{,}854\times10^{-12})(25\times10^{-4})}{0{,}5\times10^{-3}} $$
$$ \boxed{C \approx 265{,}62\,\text{pF}} $$

E13 —

Capacitor cilíndrico (Seção “Dedução: capacitor cilíndrico (cabo coaxial)”): $C = \dfrac{2\pi\varepsilon_r\varepsilon_0 L}{\ln(b/a)}$, com $a=1\,\text{mm}$, $b=6\,\text{mm}$, $L=0{,}8\,\text{m}$, $\varepsilon_r=2{,}1$:

$$ \ln(b/a) = \ln(6) \approx 1{,}7918 $$
$$ C = \frac{2\pi(2{,}1)(8{,}854\times10^{-12})(0{,}8)}{1{,}7918} $$
$$ \boxed{C \approx 52{,}16\,\text{pF}} $$

E14 —

Capacitor esférico (Seção “Capacitor esférico”): $C = 4\pi\varepsilon_0\,\dfrac{ab}{b-a}$, com $a=0{,}02\,\text{m}$, $b=0{,}05\,\text{m}$:

$$ C = 4\pi(8{,}854\times10^{-12})\frac{(0{,}02)(0{,}05)}{0{,}05-0{,}02} $$
$$ \boxed{C \approx 3{,}709\,\text{pF}} $$

E15 —

Associação série de $C_1$ e $C_2$ (Seção “Capacitores em série e paralelo”):

$$ C_s = \frac{C_1 C_2}{C_1+C_2} = \frac{(3)(6)}{3+6} = 2{,}0\,\mu\text{F} $$

Essa combinação em paralelo com $C_3$:

$$ C_{eq} = C_s + C_3 = 2{,}0 + 2{,}0 $$
$$ \boxed{C_{eq} = 4{,}0\,\mu\text{F}} $$

E16 —

(a) Capacitância: $C=\dfrac{\varepsilon_r\varepsilon_0 A}{d} = \dfrac{(4)(8{,}854\times10^{-12})(10\times10^{-4})}{2\times10^{-3}}$:

$$ \boxed{C \approx 17{,}71\,\text{pF}} $$

(b) Tensão máxima antes da ruptura, $V_{max}=E_{max}\,d = (25\times10^{6})(2\times10^{-3})$:

$$ \boxed{V_{max} = 50\,000\,\text{V} = 50\,\text{kV}} $$

(c) Energia máxima, $U_{max}=\dfrac12 C V_{max}^2$:

$$ U_{max} = \frac12(17{,}71\times10^{-12})(5\times10^{4})^2 $$
$$ \boxed{U_{max} \approx 22{,}14\times10^{-3}\,\text{J} = 22{,}14\,\text{mJ}} $$

(Consistente com a forma equivalente $U_{max}=\tfrac12\varepsilon E_{max}^2(Ad)$ da Seção “Ruptura Dielétrica”.)

E17 —

(a) Constante de tempo: $\tau = RC = (2200)(100\times10^{-6})$:

$$ \boxed{\tau = 0{,}22\,\text{s}} $$

(b) Carga no instante $t=0{,}3\,\text{s}$ (Seção “Circuito RC em série com fonte DC”), com $Q(0)=0$:

$$ Q(t) = C\mathcal{E}\left(1-e^{-t/\tau}\right) = (100\times10^{-6})(9)\left(1-e^{-0{,}3/0{,}22}\right) $$
$$ e^{-0{,}3/0{,}22} = e^{-1{,}3636}\approx0{,}2557 $$
$$ Q(t) = (9\times10^{-4})(1-0{,}2557) $$
$$ \boxed{Q(0{,}3\,\text{s}) \approx 6{,}698\times10^{-4}\,\text{C} = 669{,}8\,\mu\text{C}} $$

(c) Corrente no mesmo instante:

$$ I(t) = \frac{\mathcal{E}}{R}e^{-t/\tau} = \frac{9}{2200}(0{,}2557) $$
$$ \boxed{I(0{,}3\,\text{s}) \approx 1{,}046\times10^{-3}\,\text{A} = 1{,}046\,\text{mA}} $$

E18 (Desafio) —

Cada camada, isolada, comporta-se como um capacitor de placas paralelas com a mesma área $A$ das demais (a superfície entre camadas é equipotencial só na direção do campo — não há mudança de área). A carga livre $Q$ nas placas externas é igual à carga superficial ligada acumulada em cada interface, e cada camada suporta uma queda de tensão parcial $V_i = Q\,d_i/(\varepsilon_{ri}\varepsilon_0 A)$; a tensão total é a soma:

$$ V = \sum_i V_i = \frac{Q}{\varepsilon_0 A}\sum_i \frac{d_i}{\varepsilon_{ri}} $$

Logo $C_{eq}=Q/V$ tem exatamente a forma de três capacitores de placas paralelas $C_i=\varepsilon_{ri}\varepsilon_0A/d_i$ em série:

$$ \frac{1}{C_{eq}} = \frac{1}{C_1}+\frac{1}{C_2}+\frac{1}{C_3}, \qquad C_i = \frac{\varepsilon_{ri}\varepsilon_0 A}{d_i} $$

Calculando cada capacitância parcial ($A=20\times10^{-4}\,\text{m}^2$):

$$ C_1 = \frac{(3{,}0)(8{,}854\times10^{-12})(20\times10^{-4})}{0{,}5\times10^{-3}} \approx 106{,}25\,\text{pF} $$
$$ C_2 = \frac{(5{,}0)(8{,}854\times10^{-12})(20\times10^{-4})}{0{,}3\times10^{-3}} \approx 295{,}13\,\text{pF} $$
$$ C_3 = \frac{(2{,}5)(8{,}854\times10^{-12})(20\times10^{-4})}{0{,}2\times10^{-3}} \approx 221{,}35\,\text{pF} $$

Combinando em série:

$$ \frac{1}{C_{eq}} = \frac{1}{106{,}25}+\frac{1}{295{,}13}+\frac{1}{221{,}35}\ \ (\text{pF}^{-1}) $$
$$ \boxed{C_{eq} \approx 57{,}74\,\text{pF}} $$

(Equivalentemente, $C_{eq} = \varepsilon_0 A\Big/\big(\sum_i d_i/\varepsilon_{ri}\big)$, que fornece o mesmo valor — forma útil para generalizar a $N$ camadas.)

E19 (Desafio) —

Com dopagem não uniforme $N_d(x) = N_{d0}(1+x/L)$ e mobilidade constante, a condutividade local é:

$$ \sigma(x) = e\,N_d(x)\,\mu_n = e\,\mu_n\,N_{d0}\left(1+\frac{x}{L}\right) $$

A barra pode ser vista como uma sequência de resistores infinitesimais em série (mesma seção $A_{bar}$, mas $\sigma$ variando com $x$), cada um com resistência $dR = \dfrac{dx}{\sigma(x)A_{bar}}$. A resistência total:

$$ R = \int_0^L \frac{dx}{e\,\mu_n\,N_{d0}\left(1+\dfrac{x}{L}\right)A_{bar}} = \frac{1}{e\mu_n N_{d0}A_{bar}}\int_0^L\frac{dx}{1+x/L} $$

Fazendo $u=1+x/L$, $du=dx/L$:

$$ \int_0^L\frac{dx}{1+x/L} = L\int_1^2\frac{du}{u} = L\ln(2) $$
$$ \boxed{R = \frac{L\ln 2}{e\,\mu_n\,N_{d0}\,A_{bar}}} $$

Substituindo $L=2\times10^{-3}\,\text{m}$, $\mu_n=1350\times10^{-4}\,\text{m}^2/\text{V·s}=0{,}135\,\text{m}^2/\text{V·s}$, $N_{d0}=10^{16}\,\text{cm}^{-3}=10^{22}\,\text{m}^{-3}$, $A_{bar}=1\times10^{-6}\,\text{m}^2$:

$$ R = \frac{(2\times10^{-3})(0{,}6931)}{(1{,}602\times10^{-19})(0{,}135)(10^{22})(1\times10^{-6})} $$
$$ \boxed{R \approx 6{,}41\,\Omega} $$

Como verificação, a resistência de uma barra com dopagem uniforme igual a $N_{d0}$ (extremidade menos dopada) seria $R_0 = L/(e\mu_nN_{d0}A_{bar}) \approx 9{,}25\,\Omega$; como a dopagem real cresce ao longo de $x$ (barra mais condutora na média), é esperado $R<R_0$, o que se confirma ($6{,}41\,\Omega < 9{,}25\,\Omega$).

E20 (Desafio) —

Para satisfazer $V=0$ simultaneamente nos dois planos aterrados ($x=0$ e $y=0$), usa-se a superposição de três imagens (extensão direta da ideia da Seção “Dedução: carga puntiforme sobre plano condutor aterrado”, aplicada duas vezes):

Com $q=6\,\text{nC}$, $x_0=0{,}04\,\text{m}$, $y_0=0{,}03\,\text{m}$, calcula-se a força resultante sobre $q$ somando vetorialmente as três interações coulombianas:

$$ \vec F = \frac{1}{4\pi\varepsilon_0}\left[\frac{q(-q)}{r_1^2}\hat r_1 + \frac{q(-q)}{r_2^2}\hat r_2 + \frac{q(q)}{r_3^2}\hat r_3\right] $$

onde $r_1$ é a distância até a imagem em $(-x_0,y_0)$ (igual a $2x_0=0{,}08\,\text{m}$, força puramente em $-\hat x$), $r_2$ é a distância até a imagem em $(x_0,-y_0)$ (igual a $2y_0=0{,}06\,\text{m}$, força puramente em $-\hat y$), e $r_3=2\sqrt{x_0^2+y_0^2}=2(0{,}05)=0{,}10\,\text{m}$ é a distância até a imagem diagonal em $(-x_0,-y_0)$ (força repulsiva, ao longo da direção que une as duas cargas, apontando para longe da origem).

Calculando componente a componente (unidades SI):

$$ F_{1x} = -\frac{1}{4\pi\varepsilon_0}\frac{q^2}{(2x_0)^2} \qquad F_{2y} = -\frac{1}{4\pi\varepsilon_0}\frac{q^2}{(2y_0)^2} $$

e decompondo a repulsão diagonal $F_3=\dfrac{1}{4\pi\varepsilon_0}\dfrac{q^2}{r_3^2}$ nas direções $\hat x,\hat y$ proporcionalmente a $(x_0,y_0)/\sqrt{x_0^2+y_0^2}$, a soma vetorial resulta em:

$$ \boxed{F_x \approx -2{,}467\times10^{-5}\,\text{N}, \qquad F_y \approx -7{,}046\times10^{-5}\,\text{N}} $$
$$ \boxed{|\vec F| \approx 7{,}466\times10^{-5}\,\text{N}} $$

O sinal negativo em ambas as componentes confirma que a força resultante aponta para dentro do canto (em direção aos dois planos), ou seja, a carga é atraída simultaneamente pelas duas superfícies condutoras aterradas — generalização natural do resultado de atração vista no caso de um único plano (Seção “Força sobre a carga real”).